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(Produção editorial de Alexandre Aguiar / MetSul)
Chegada iminente das cinzas e ciclone na costa
Quando cinzas vulcânicas caíram em Porto Alegre e no interior gaúcho em 21 de abril de 1993 eu era primeiro-tenente meteorologista no setor de Meteorologia do DPV de SBPA (Aeroporto Salgado Filho) sob o comando do então Capitão Dario da FAB. São quase 30 anos de trabalho na previsão do tempo e está é apenas a terceira vez que trabalho com um prognóstico de cinzas vulcânicas, o que sinaliza o quanto é raro este tipo de incidência. Nas próximas 24 a 36 horas teremos, então, as cinzas se aproximando do Sul do Brasil pelo Oeste e um ciclone extratropical intenso em formação na costa gaúcha ao mesmo tempo, o que por si só já é algo extraordinário pela coincidência singular de eventos. Mais do que isso, o ciclone junto ao litoral terá influência na trajetória de deslocamento das cinzas, o que fará do trabalho de previsão nas próximas horas algo para ser recordado no futuro.


Especialistas em vulcanologia consultados pela MetSul Meteorologia relatam que durante as últimas horas houve uma diminuição na atividade do complexo vulcânico Puyehue-Cordón Caulle, na fronteira com Chile com a Argentina, mas o vulcão continua a expelir cinzas e rochas em grande altitude, podendo apresentar novas explosões significativas, como as do fim de semana, emitindo fluxo piroclástico. Cidades próximas do vulcão (fotos acima de reprodução de jornais) continuam sob chuva de cinzas e rochas com uma grande quantidade de acumulação.
A MetSul Meteorologia destaca em comunicado para a mídia no começo desta terça-feira que as cinzas estão cada vez mais próximas do Rio Grande do Sul e enfatiza que podem alcançar a Metade Oeste do Estado e o Oeste de Santa Catarina já nesta terça. As cinzas avançaram ontem para o Norte com incrível velocidade, transportadas por vento intenso em altura (correntes de jato).

Na madrugada de hoje, a pluma de cinzas em grande altitude alcançou o Sul da Bolívia, o Oeste do Paraguai, o Sul do Uruguai e a região da capital argentina Buenos Aires (veja a nefoanálise do SMN/Argentina abaixo). A pluma de cinzas neste momento contorna o Norte da Argentina devido à circulação de ventos em altos níveis da atmosfera associada a um centro de baixa pressão que avança para o Rio Grande do Sul.


É muito possível que a pluma vulcânica na atmosfera comece a ingressar no Estado já no dia de hoje, nas próximas horas, quando haverá a entrada de ar frio a partir da circulação de vento no Norte argentino. O ingresso deve se dar primeiro pelo Oeste e não pelo Sul, já que em quadros de baixas pressões e ciclones na costa, a advecção se dá pelo Oeste e o Noroeste. É o que projetam os modelos para hoje e a quarta-feira.

Quanto mais longe da erupção, e estamos muito distantes do vulcão, é menor a possibilidade de precipitação de cinza. Em muitos locais do Centro da Argentina, a presença da nuvem vulcânica foi percebida apenas pelo tom mais cinza e alaranjado do céu. A possibilidade de precipitação, contudo, não pode ser descartada, em especial se houver interação entre as cinzas e nuvens cujos topos atingem altitudes mais altas com instabilidade.

Existem um outro sistema meteorológico que vai interferir com esta erupção vulcânica do Sul do continente. É um ciclone extratropical poderoso de 965 hPa que se deslocará do Pacífico (foto de satélite acima) para a área meridional da América do Sul. Este sistema traz chuva forte e neve para a região da erupção, o que pode ter sérias conseqüências. Primeiro, experts em vulcanologia teorizam que neve e chuva intensa numa erupção pode aumentar a atividade vulcânica. Segundo, agrava-se o risco da ocorrência de "lahar", ou seja, deslizamentos e colapsos de terreno na região em processo eruptivo, o que força a evacuação preventiva de milhares de pessoas da região e deixa toda a área próxima do vulcão em alerta máximo (reproduções abaixo).

As cinzas já alcançaram as províncias argentinas de Rio Negro, Chubut, Nequen, La Pampa, Buenos Aires, Mendoza, Entre Rios, Santa Fé, San Juan, Salta, dentre outras, já que a lista deve aumentar com a inclusão de províncias do Norte do país. Ontem, houve precipitação de cinzas em La Pampa e no Sul da Província de Buenos Aires, onde a coluna de cinzas era densa (foto de satélite).

Todos os voos seguem cancelados para a Patagônia e agora também as rotas internacionais são afetadas na região de Buenos Aires e Montevidéu. TAM, Gol, United Airlines, American, Delta, Taca, Aerolíneas Argentinas e Austral já anunciaram cancelamentos de voos domésticos e internacionais partindo de Ezeiza e Carrasco. Mendoza também está com operações afetadas.

A MetSul recomenda aos passageiros com voos saindo de Porto Alegre com destino a Buenos Aires (Ezeiza e Aeroparque), outras cidades Argentinas (Córdoba e Rosário) e Montevidéu (Carrasco) pelas empresas TAM, Gol e BQB que busquem informações juntos às companhias sobre possíveis cancelamentos para as capitais argentinas e uruguaia. Ainda ontem, de acordo com informações da Infraero, duas empresas cancelaram voos que tinham como destino Porto Alegre nesta terça. A Taca faria um voo de Lima, no Peru, com destino a Porto Alegre e cancelou a viagem. Dessa forma, a decolagem posterior também foi cancelada. A Gol, responsável por realizar um voo originário de Córdoba, na Argentina, em direção à Capital também cancelou a chegada. Outro voo, oriundo de Buenos Aires com chegada programada para as 9h sofreu cancelamento.
O que oferece maior risco ao Estado na próximas horas, contudo, não são as cinzas, mas um sistema de baixa pressão que cruza o Rio Grande do Sul em direção ao mar. Este sistema vai dar origem a um extratropical intenso muito próximo da costa gaúcha no começo da quarta-feira.
A MetSul Meteorologia adverte para o risco de chuva forte a ocasionalmente intensa de forma localizada no Estado no decorrer desta terça. Já choveu entre 30 e 40 milímetros em vários pontos do interior e os volumes devem aumentar nas próximas horas. O vento deve se intensificar da tarde para a noite e atingir seu ápice no inicio da quarta-feira. Pode soprar com rajadas fortes, até intensas em pontos isolados do Nordeste gaúcho, sobretudo entre a Grande Porto Alegre, a Serra e o Litoral Norte, mas, principalmente, no Litoral Norte, onde não são afastadas rajadas de vento de 80 a 100 km/h, ocasionalmente superiores. Chama atenção a trajetória semelhante ao ciclone intenso ocorrido na primeira semana de maio de 2008 que trouxe muitos transtornos. Nenhum evento meteorológico, porém, é igual ao outro, mas o quadro exige atenção. (Produção editorial de Alexandre Aguiar / MetSul)






