
Os céus de Porto Alegre perderam parte de seu charme. Veterano com mais de 60 anos, o avião Douglas DC-3 que realizava vôos panorâmicos pela Capital sobreviveu à II Guerra Mundial, mas não resistiu à falta de interesse e apoio financeiro da comunidade. Sem condições de manter a aeronave, seus proprietários decidiram vendê-la a um empresário do interior paulista.
Efetuada em julho passado, a transação foi mantida em sigilo por exigência do comprador - dono de uma empresa fora do ramo aeronáutico, mas apaixonado por aviões -, que não aceita ter seu nome divulgado. O valor pago pelo DC-3, o único que ainda voava no Brasil, também é segredo - em um site norte-americano especializado (www.aerotraderonline.com),um DC-3 1941 é cotado a US$ 165 mil (R$ 341 mil).
- Só aceitamos vender porque tivemos a garantia de que o avião seria preservado e permaneceria no Brasil - diz o piloto da Varig Eduardo Letti, 40 anos, um dos quatro sócios proprietários do DC-3.
Construído em 1943, o avião foi adquirido pelos pilotos do Aeroclube do Rio Grande do Sul de uma empresa de táxi-aéreo de Belém do Pará em 1997. Teve de ser reformado, até que pudesse voltar a voar, três anos depois, em passeios panorâmicos. A recuperação foi minuciosa, com peças originais e mantendo a ambientação interna da época - especula-se que o avião tenha participado do Dia D, na II Guerra Mundial antes de ser incorporado à aviação civil.
Os cerca de R$ 60 cobrados por passageiro eram insuficientes para bancar os custos operacionais, que chegam a US$ 1,2 mil (R$ 2,48 mil) por hora de vôo. A esse valor, incidiam ainda os custos de seguro, manutenção e reforma, que podem ter chegado próximo dos US$ 200 mil desde 1997.
Último vôo foi sobre o Litoral no verão de 2005
Na busca por patrocínio - na forma de combustível e óleo de aviação -, o grupo de pilotos deu palestras, fez vôos de demonstração e visitou empresários, mas não houve o respaldo necessário. Nem a aparição do DC-3 no filme Diários de motocicleta, de Walter Salles - que se passa nos anos 50 -, fez decolar os financiamentos. Os últimos vôos do avião foram no Litoral, no verão de 2005. Mas Letti não está desapontado:
- Temos orgulho muito grande porque, se não fosse o nosso esforço, o avião teria virado ferro-velho.
O velho Douglas DC-3 ainda continuará voando em feiras e eventos aeronáuticos, mas longe dos céus do Rio Grande do Sul.

Data de fabricação: 1943 (do avião que estava no Estado)
Velocidade de cruzeiro: 270 km/h
Capacidade: 28 passageiros
Altitude de vôo: até 3 mil metros
Autonomia: sete horas de vôo com os tanques cheios
Comprimento: 19,66 metros
Envergadura: 28,96 metros

Dia D: No dia 6 de junho de 1944, o Dia D, os aliados ocidentais desembarcaram na França (foto). Foi a maior operação militar aeronaval da História. Mais de 100 mil homens se lançaram nas praias da Normandia, dando início à libertação européia do domínio nazista.
O primeiro Douglas DC-3 decolou em dezembro de 1935, nos EUA, para conquistar o espaço aéreo mundial nos anos seguintes. A capacidade de manobrar em pistas curtas e campos de pouso precários o transformou no principal modelo das companhias aéreas da época.
Em 1941, o DC-3 se tornou o avião de transporte padrão para a Força Aérea norte-americana. Durante a II Guerra Mundial, foram produzidas mais de 10 mil unidades para os EUA e seus aliados. O final do confronto gerou um excedente desses modelos, que acabaram vendidos a companhias áreas civis de diferentes países a preços baixos.
Estima-se que, no pós-guerra, o DC-3 respondia por mais de 90% do tráfego aéreo mundial. A Varig, por exemplo, contabilizou 26 aviões do tipo em sua frota entre 1946 e 1971. O DC-3 deteve o recorde de produção mundial até o advento dos modelos a jato. Algumas projeções indicam que ainda existam em torno de 400 aeronaves do tipo no mundo.
Fonte: Zero Hora
