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Correio Braziliense 29 Janeiro 2006
Dependência garantida
Embargo norte-americano à venda de aviões brasileiros e espanhóis para Hugo Chávez esconde interesse em manter mercado bélico na América do Sul.
Embraer não tem opções para fugir da proibição
A interferência dos Estados Unidos para bloquear a venda de aviões brasileiros Super Tucano à Venezuela ganhou status de rixa diplomática depois que o Itamaraty decidiu comprar a briga da Embraer — empresa na qual o governo detém apenas 0,8% de ações do tipo golden share, que lhe garantem poder de veto essencial à preservação de interesses estratégicos. Em firmes declarações à imprensa na última semana, autoridades de Brasília e Caracas se disseram vítimas de um embargo comercial, cuja motivação política estaria no temor da Casa Branca diante do fortalecimento militar venezuelano e suas “conseqüências desestabilizadoras” na região.
Mas por trás da retórica está o interesse norte-americano de garantir para si um mercado histórico, ameaçado pela Europa. Segundo o Correio apurou, a estratégia impulsionada pelo lobby da indústria bélica dos EUA passa por convencer o presidente Hugo Chávez a gastar petrodólares com a tecnologia made in USA, impedindo a enxurrada de armas e equipamentos militares de países como Espanha e Rússia. Antes de barrar as aeronaves brasileiras, o governo Bush impediu que Madri fechasse um negócio de US$ 2 bilhões em Caracas, com a venda de 10 aviões de transporte, dois de reconhecimento e oito fragatas.
Por utilizar componentes fabricados por empresas americanas, os equipamentos produzidos pelo consórcio Casa-EASD estão sob a tutela da Lei de Exportação de Armas dos EUA e só podem ser comercializados com a licença do escritório de Indústria e Segurança do Departamento de Comércio dos EUA. O mesmo ocorre com a Embraer (leia a matéria nesta página), que monta o Super Tucano com equipamentos produzidos no vizinho do norte, estando legalmente impedida de vender suas aeronaves a Caracas.
Até agora, Chávez só conseguiu fechar contrato para a aquisição de 40 helicópteros e 100 mil fuzis de assalto russos do tipo AK-103 e 104, embora a entrega do primeiro lote de 10 aeronaves e 30 mil armas esteja atrasada. Fontes da Chancelaria venezuelana disseram à reportagem que uma comissão de alto nível deverá viajar a Moscou nas próximas semanas para cobrar o cumprimento do acordo. Para piorar, os sucessivos adiamentos de uma visita de Estado do presidente russo, Vladimir Putin, criam um clima de frustração na Venezuela. Em fevereiro, Putin vai à Argélia, onde assinará um acordo de US$ 4 bilhões para a venda de 36 caça-bombardeiros MiG-29SMT e 28 Sukhoi (Su-30), além de veículos blindados e fuzis.
Pressão
Os poderosos MiG-29 também viraram objeto de desejo de Chávez, uma vez que Washington não permitia que seu governo renovasse os motores e sistemas eletrônicos dos F-16 adquiridos dos EUA na década de 80. Há poucos dias, no entanto, o ministro da Defesa venezuelano, Orlando Maniglia, recebeu uma carta amistosa na qual o embaixador norte-americano em Caracas, William Brownfield, expressou a intenção de retomar as negociações para manter a esquadrilha em atividade. “O diálogo impera neste momento(…). Finalmente, o caminho começa a se abrir”, disse Maniglia.
Numa espécie de sinuca de bico, Chávez apelou mais uma vez para a retórica de confrontação e chamou o governo Bush de “rídiculo” ao proibir a Embraer de “vender aviões de treinamento à Venezuela”. “Que governo tão imoral esse dos Estados Unidos, tão pouco respeitoso com o mundo inteiro que às vezes chega a passar de imoral a ridículo”, disse, na sexta-feira, durante ato oficial no Palácio de Miraflores, em Caracas. O mandatário ameaçou mais uma vez adquirir aviões de outros parceiros. “Posso comprar da Rússia e ver se é verdade que podem proibir a negociação. Posso também negociar com a China”, acrescentou.
Para o especialista em segurança nacional Salvador Raza, a pressão política dos EUA é alicerçada pelas forças de mercado, criando “um grande xadrez internacional”. “De um lado estão os países em desenvolvimento ávidos por tecnologia, e de outro os desenvolvidos querendo se livrar da tecnologia obsoleta.” Raza, que é chefe do Departamento de Relações Internacionais das Faculdades de Campinas, explica que os EUA forçaram um padrão tecnológico dominante, que fica evidenciado com o caso da Embraer. “Essa subserviência tecnológica a longo prazo limita qualquer possibilidade de inovação.”
Alternativa americana
Os 24 Super Tucanos renderiam à Embraer pelo menos US$ 170 milhões (cerca de R$ 400 milhões), e seriam o segundo grande lote de exportação em menos de dois meses depois da venda de 25 dessas aeronaves à Colômbia, em dezembro passado. No lugar do modelo brasileiro, os americanos pensam em empurrar à Venezuela a aeronave Raytheon T-6A Texan II, com características semelhantes às do Super Tucano e identificada pela própria Embraer como seu concorrente direto, ao lado do avião suíço Pilatus PC-9M.
O Super Tucano se destaca pelas capacidades de carregar armas leves e voar em áreas equatoriais — de forte calor e alta umidade. Dos itens fabricados por empresas americanas, que equipam a aeronave, estariam a hélice e o sistema de visão noturna. A chamada “aviônica”, que compreende o computador de bordo e o sistema inercial de vôo, é fornecida pela companhia israelense Elbit, enquanto o motor é de uma subsidiária da americana Pratt-Whittney do Canadá.
Uma fonte do governo venezuelano disse ao Correio que os 12 caças subsônicos AMX-T, incluídos no pacote inicial, já haviam sido descartados pelo Ministério da Defesa antes mesmo do embargo americano. A justificativa seria “seu elevado custo” (US$ 300 milhões) em relação “ao baixo desempenho”. Apesar de adotar o silêncio sobre a questão, o sentimento na cúpula da Embraer é de que o polêmico contrato com a Venezuela está perdido. Para interlocutores, o presidente Hugo Chávez se confessou decepcionado. Há meses, ele negociava com o Brasil a implementação de uma planta industrial para a fabricação de aviões militares e civis em seu país.
No entanto, o governo continuará com os esforços diplomáticos, como avisou na sexta-feira o assessor para assuntos internacionais da Presidência, Marco Aurélio Garcia. “Vamos tratar isso com cuidado mas com firmeza, sem queimar etapas”, disse à TV estatal venezuelana. Garcia ressaltou que a situação não é isolada, “pois há um problema semelhante ocorrendo com a Espanha”. E reiterou que o governo considera a gestão americana “inaceitável”. “A Venezuela não é objeto de nenhuma sanção internacional atualmente”, acrescentou, repetindo as palavras usadas pelo chanceler Celso Amorim. A Embraer está de mãos atadas, e não só por causa da dependência tecnológica. Atualmente, os EUA são o destino de 80% dos aviões de uso comercial produzidos no Brasil. O último relatório financeiro da empresa, referente ao primeiro trimestre de 2005, registra 756 aeronaves das famílias “ERJ e Embraer”.
EUA é economia capitalista, de "livre concorrência de mercado" (quando é para êles!)
Um abraço e até mais...
Cláudio Severino da Silva
jambock@brturbo.com.br
EUA:Embraer não tem opções para fugir da proibição
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