Jornal de Turismo - 13/01/2006 - 12:55
Um líder exemplar na Varig
Por Cláudio Magnavita*
Quando um dos prepostos de uma empresa de consultoria perguntou ao então diretor de vendas da Varig, Marcelo Bottini, qual a sua solução para os problemas da Varig, ele respirou fundo e, já tarimbado pelo rodízio de executivos que assolaram a aérea nos últimos meses, sempre a bordo de contratos milionários, respondeu à queima-roupa: "Nesta empresa falta um líder e que sirva de exemplo para todos!"
O consultor, surpreso com a inusitada e franca resposta, apenas anotou o desabafo e seguiu em frente com perguntas óbvias, sem imaginar que na sua frente estava exatamente o líder que meses depois estaria sentado na mesma cadeira que foi de Ruben Berta na presidência da Varig. Aliás, já na condição de presidente, uma das primeiras ações de Bottini foi recolocar a figura do "senhor Berta" de volta à sala principal da presidência executiva. Fez isso não apenas de forma figurativa ou utilizando algum auxílio mediúnico. Ele colocou no seu devido lugar, atrás da mesa de presidente, um grande retrato do histórico variguiano que se encontrava na recepção do quarto andar da sede. Por entrelaçamento do destino, um quadro pintado por um artista goiano e doado à diretoria pelo próprio Bottini quando ocupava a sua primeira gerência geral em Goiânia.
Depois de um período em que a empresa foi gerida por alienígenas - o grupo de notáveis que se encastelou na sede da companhia -, Bottini era o primeiro variguiano a voltar ao comando da Varig. Por isso mesmo, tinha total consciência da necessidade de mostrar liderança e foi o que fez: arregaçou as mangas e cuidou de dar um choque de gestão, assumindo o papel de líder exemplar que a companhia precisava.
Mostrando tal personalidade, Bottini, agora na presidência, apenas amplifica esta que é a marca da sua carreira profissional, que o acompanha há anos, como nos tempos em que foi gerente geral da Varig na Bahia e chegou a pilotar trator na pista do antigo aeroporto "Dois de Julho" para agilizar serviços de despacho. Como sempre, ele não tem medo de ousar, contrariando manuais e burocracias de uma empresa engessada pelo medo e por pessoas que não querem arriscar.
Em 1994, o jornal "The Brazilian Post", de Miami, estampava na capa a manchete "Varig vive a sua pior crise". No mesmo jornal, além da entrevista de Rubel Thomas, a matéria assinada por este jornalista afirmava que a solução da empresa estava numa nova geração de variguianos, citando Paulo Henrique Coco e Marcelo Bottini como expoentes deste novo DNA de coragem que tanto fazia falta. O primeiro assumiu a presidência da RioSul Linhas Aéreas e depois da Transbrasil. Hoje é um empresário bem-sucedido no setor de transporte terrestre. O segundo é agora o presidente da Varig. Se o articulista errou em avaliar a "pior crise da Varig", acertou em apontar o perfil dos dois personagens.
No processo de trazer para os variguianos o comando da Varig, Bottini acumulou vitórias consecutivas. Além de competência, demonstrou que o fator sorte estava ao seu lado e até mesmo em horas mais difíceis as soluções se materializaram no terceiro tempo do jogo. Sem entrar no mérito, na análise de conteúdo e de mérito jurídico do Plano de Recuperação apresentado recentemente pela empresa, o atual presidente conseguiu algumas missões julgadas impossíveis anteriormente: teve o Plano aprovado pelos credores; valendo-se do fato de ser também cidadão norte-americano (ele ganhou a cidadania depois de uma longa residência nos EUA) não se apavorou com o embate na corte de Nova York e a enfrentou corajosamente; conseguiu o aval do colégio deliberante da Fundação Ruben Berta e também recebeu a aprovação da justiça carioca, na qual corre o processo de Recuperação Judicial. Além disso, pagou as empresas de leasings e assumiu uma postura de estadista ao ser franco e diagnosticar com absoluta clareza, para todo o corpo funcional e o mercado, os problemas da companhia. Fez o diagnóstico e os enfrentou de frente, colocando o seu pescoço na guilhotina por diversas vezes.
Neste período de guerra, deixou a família e o conforto de lado e não teve nem chance de retornar ao convívio de sua residência em Miami para compartilhar com Kassandra e os seus filhos a sua nova missão presidencial. Uma faixa carinhosamente feita pelo filho do meio, que dizia "Welcome Mr. President", ficou amarelada na sala de sua casa na Flórida. Ele teve de abortar diversas idas e até abandonar o avião antes de decolar para Miami, fisgado pelos problemas que apareciam. Durante duas semanas esteve literalmente acampado no quarto andar da Varig, onde dormiu noites seguidas. Tudo isso resultou em uma imersão que ajudou a salvar a empresa e que exorcizou os pianos que estavam pendurados sobre a sua cabeça.
Sob o seu comando a Varig se prepara para um novo momento, na qual deverá passar por uma revolução cultural para sobreviver. Isto significa difundir em todos os setores a coragem de falar, a transparência e a coerência de seu presidente. Estão sendo extinguidos os anseios e o medo. Quem se sentir incomodado com o novo momento não pode contaminar o ambiente. Esta sinalização tem sido feita pelo próprio Bottini em seus discursos e conversas com o corpo funcional. É um novo momento. A credibilidade está ao seu lado e é preciso apenas que não se macule esta vitória, com companhias indesejáveis e ações que possam ter sentido dúbio e desestabilizar o clima de união.
A empresa vive um momento especial e não poderá haver espaço para se perder tempo olhando para o retrovisor e ficar buscando esse ou aquele culpado. A hora é de seguir em frente e reconquistar posições que foram perdidas nas diferentes batalhas.
Um dos maiores méritos de Marcelo Bottini é fazer o "mea culpa". Deve-se separar o joio do trigo e pulverizar aqueles que colocam interesses pessoais e de grupos acima dos da própria companhia. Desprovido de vaidades o novo presidente mandou retirar a sua foto dos editoriais da revista de bordo, almoça no bandejão, carrega a sua própria mala, dirige o seu carro, atende a todos e sabe que a luta está apenas começando. As panes, e foram diversas delas, foram resolvidas em pleno vôo. A empresa está unificada e tem um líder. Já se pode respirar e pensar no futuro. A crise e as situações desesperadoras estão saindo de cena e será obrigatório mostrar competência, como o seu próprio presidente vem fazendo desde que assumiu o cargo.
O Brasil torce pela Varig e é preciso que os variguianos continuem fazendo o mesmo. O quadro será de sangue, suor e lágrimas e só os bons chegarão ao fim da jornada.
Um líder exemplar na Varig
Moderador: Moderadores
Regras do fórum
As regras do fórum estão disponíveis CLICANDO AQUI.
As regras do fórum estão disponíveis CLICANDO AQUI.
-
Claudio Paiva de Paula
- PP

- Mensagens: 38
- Registrado em: Ter Fev 15, 2005 15:13
- Localização: São Paulo