Contagem regressiva
O tenente-coronel da Força Aérea Brasileira Marcos César Pontes vive os momentos mais emocionantes desde quando foi escolhido, em 1998, para representar o Brasil como astronauta do programa da construção da Estação Espacial Internacional (ISS). Na Cidade das Estrelas, ou Star City, o histórico centro de preparação de astronautas russos perto de Moscou - onde tem um armário próximo ao que pertenceu a Yuri Gagarin, o primeiro ser humano a ir ao espaço - Pontes enfrenta uma desgastante rotina. Ele está a exatamente cem dias de realizar a missão para a qual vem se preparando há sete anos: tornar-se o primeiro brasileiro a visitar a órbita da Terra. Na semana passada, ele interrompeu seu treinamento e, por e-mail, concedeu ao Globaltech a seguinte entrevista, uma das primeiras desde que foi definida a data da sua viagem, 22 de março de 2006.
Globaltech - Como é a sua rotina diária em Star City?
Pontes - Desde que cheguei, no dia 13 de outubro, estou em treinamento contínuo. A razão da pressão é o tempo. A preparação para uma missão numa espaçonave russa dura de oito a 13 meses. No meu caso, com a decolagem prevista para 22 de março, o treinamento será feito no tempo recorde de cinco meses! É uma situação nova, nunca antes realizada. A Roskosmos (agência espacial russa) concordou em encarar o desafio devido a minha experiência de sete anos de treinos na Nasa. A rotina diária se inicia às 6h e se encerra às 23h. O dia-a-dia é composto de aulas práticas em simuladores, testes e exames, preparação física e estudo. Além disso, existem treinamentos específicos de sobrevivência, testes de equipamentos, execução de experimentos científicos etc. Os fins de semana e feriados são usados para colocar o trabalho em dia. Até março a vida será assim, cheia de atividades e o nível de preparação crescendo a cada dia.
Globaltech - Em que etapa está o seu treinamento?
Pontes - O treinamento de um astronauta se divide em três fases: essencial, avançada e específica. A essencial começou quando fui selecionado para representar o Brasil no programa da ISS, em junho de 1998, e durou dois anos. Foi composta de 90% de treinamento técnico nos sistemas do ônibus espacial e da ISS e os outros 10% por cursos como geologia, astronomia, medicina de emergência, sobrevivência etc. No final de 2000, fui declarado astronauta graduado pela Nasa (agência espacial americana). A partir daí, somos considerados aptos para o vôo. A fase avançada se iniciou em 2001. É composta por atividades de manutenção de conhecimento adquirido, estudo das modificações nos sistemas e cursos de qualificação como robótica, EVA (saídas da nave no espaço), rendezvous (acoplagem de duas naves) etc. A fase específica (em que me encontro) começou no dia em que fui escalado para o vôo, em outubro passado. Neste período são definidas exatamente quais serão as nossas funções e tarefas no vôo. Treinamos todos os detalhes específicos para aquele vôo: experimentos, tarefas EVA, cargas úteis etc. No regresso retornamos à fase avançada, aguardando o próximo vôo, e assim por diante.
Globaltech - Qual será sua missão no vôo?
Pontes - Na Soyuz (nave que levará Pontes até a ISS), seremos um russo (Pavel Vinagradov, o comandante), um norte-americano (Jeffrey Williams, engenheiro de bordo) e eu (também engenheiro de bordo). Em termos de funções, sou treinado como "especialista de missão", cujas tarefas no espaço envolvem todas as atividades de montagem, manutenção de sistemas, execução de experimentos, excluindo a "pilotagem" da nave que, em situações normais, é função do comandante, sempre da nacionalidade do veículo. Também teremos a parte científica. Levarei e executarei experimentos científicos de instituições de pesquisa e universidades brasileiras.
Globaltech - Já foram escolhidas as experiências que o senhor fará em órbita?
Pontes - A gerência técnica do projeto está a cargo da Agência Espacial Brasileira, que vem selecionando os experimentos. A participação brasileira na ISS coloca nas mãos dos nossos cientistas um laboratório em condições únicas no planeta (ou fora dele, talvez seja melhor descrito). Temos a oportunidade de desenvolver novos materiais, medicamentos, metodologias de fabricação, adquirir conhecimento de ciências básicas etc, da mesma forma que as nações científica e tecnologicamente mais adiantadas. Ou seja, temos a chance de entrar para um grupo muito seleto: o dos países detentores de tecnologias que irão ditar as tendências e comandar o mercado internacional.
Globaltech - O que senhor pretende fazer nas horas vagas na ISS?
Pontes - Não teremos muitos momentos vagos. Obviamente existem seis horas de sono previstas por dia. Fora isso, temos momentos de alimentação e cuidados pessoais. Com certeza, nos momentos que tiver para observar o nosso planeta, estarei pensando (e vendo, às vezes) no Brasil e em tudo que podemos fazer para torná-lo cada vez melhor.
Globaltech - O senhor fez todo o seu treinamento na Nasa, voaria num ônibus espacial. Agora se prepara para ir ao espaço com os russos, na Soyuz. Existe muita diferença?
Pontes - A diferença básica é o idioma. A Soyuz é o veículo de abandono de emergência da estação espacial. Portanto, já conhecia de forma resumida os seus sistemas, além, claro, os sistemas da ISS. Contudo, agora preciso conhecer a fundo os procedimentos desde a decolagem. A filosofia e a metodologia do treinamento seguem o mesmo padrão, velho conhecido meu na Nasa. Mas o detalhamento dos sistemas para o veículo e muitas outras áreas de estudo e treinamento são voltados para a Soyuz e ministrados em russo, idioma em que deverei dominar os conceitos para a operação. Em termos de relacionamento, não há qualquer dificuldade. Tanto a Nasa quanto a Roskosmos são lugares onde as pessoas trabalham motivadas por um objetivo comum. E, em se tratando de uma tripulação, não importa a nacionalidade do companheiro, a vida de cada um está na competência e na dedicação dos outros membros. Portanto, somos irmãos neste momento.
Globaltech - Como se sente na famosa Cidade das Estrelas, onde, desde Yuri Gagarin, os russos preparam seus astronautas?
Pontes - Excelente. A história desse lugar é, sem dúvida, motivante. Existe até o armário do Gagarin no ginásio, com as coisas dentro ainda. O meu fica ali, a apenas alguns metros. O fato de ser o primeiro a levar a bandeira brasileira ao espaço é bastante conhecido por aqui. Freqüentemente fazem esta comparação com Gagarin. Sinto-me muito honrado e orgulhoso. Agradeço, encho o peito - e volto a estudar e me preparar porque sentir-se orgulhoso com o que os outros dizem não ajuda a trazer os bons resultados que o Brasil merece e espera de mim. Isso só é conseguido com o suor de cada dia.
A ISS
A Estação Espacial Internacional, ou ISS, está sendo montada a uma altitude de cerca de 400 quilômetros por 16 países: Estados Unidos, Rússia, Japão, Canadá, França, Alemanha, Itália, Suíça, Inglaterra, Suécia, Dinamarca, Bélgica, Noruega, Holanda, Espanha e Brasil.
fonte: jornal "Zero Hora" 12 dez 2005
Um abraço e até mais...
Cláudio Severino da Silva
Jambock@brturbo.com.br
Pontes no espaço: contagem regressiva
Moderador: Moderadores
Regras do fórum
As regras do fórum estão disponíveis CLICANDO AQUI.
As regras do fórum estão disponíveis CLICANDO AQUI.
