Fundação quer continuar a trabalhar para Varig após perda de controle
JANAINA LAGE
da Folha Online, no Rio
Às vésperas da assembléia para formação do Comitê de Credores, o presidente do Conselho de Curadores da Fundação Ruben Berta (FRB), Cesar Curi, afirma que um dos critérios para seleção do novo controlador da Varig será a continuidade da prestação de serviços da FRB. Pronta para assumir o papel de minoritária, a fundação busca novos mercados e clientes, mas quer preservar os que atende atualmente.
Em entrevista à Folha Online, Curi comenta o perfil esperado do novo comprador, o excessivo número de propostas, as brigas entre sindicatos e administração da empresa e o cenário da aviação nacional.
Segundo Curi, a Varig é hoje "o melhor negócio da América Latina". Leia trechos da entrevista abaixo:
Folha Online - A FRB tem um histórico de preocupação com a qualidade de vida dos funcionários. Que características o novo dono da Varig deve ter?
Curi - Os princípios que nos pautam são: encontrar uma solução positiva para a Varig, que englobe a continuidade do Aerus [fundo de pensão], e que a FRB tenha uma participação digna no grupo que ela construiu com tanto trabalho. Ela é a melhor parceira que alguém pode encontrar no país para tocar qualquer negócio.
Folha Online - E quanto aos funcionários?
Curi - Nós temos uma preocupação muito grande com o ser humano. Queremos uma solução que contemple a maior quantidade de empregos e permita que a empresa continue em crescimento a médio e longo prazo. O ponto fundamental é que qualquer proposta precisa ter um arcabouço jurídico. O que pauta as relações, além do aspecto da confiança, é a parte documental, ela precisa estar juridicamente muito bem preparada. Em qualquer problema de conflito, ela pode facilitar que a relação existente seja a que foi acordada no passado.
Folha Online - A prestação de serviço da FRB vai estar no contrato?
Curi - Nosso processo de negociação pretende ter uma abrangência holística, que tudo o que tenha que ser negociado seja feito antes para deixar muito claro para todas as partes qual é o tipo de relação que deve ser exercida. É muito ruim quando se faz uma negociação e depois você começa a trazer componentes à mesa, isso dá uma impressão de desconfiança.
Folha Online - Isso vai pesar na decisão?
Curi - Isso é extremamente positivo para a decisão, sempre que bem explicado, qualquer novo controlador vai entender a FRB como o casamento ideal. Isso vai ser trazido à mesa de negociação.
Folha Online - Como o sr. avalia o aparecimento de um número tão grande de propostas pela Varig?
Curi - O fato de existirem inúmeros interessados é uma demonstração clara do potencial do grupo e das empresas. Vejo a Varig como uma noiva inteligente, bonita, interessante, simpática. É uma noiva poliglota porque atua em inúmeros países e sabe se comportar em todos eles. Cada vez mais interessados vão sair da toca.
Folha Online - A FRB já recebeu diversos interessados em comprar participação no grupo. Qual é o critério usado para selecionar o investidor?
Curi - Nós sempre nos colocamos à disposição de escutar as pessoas. Procuramos explicar se o assunto é da nossa competência ou do conselho da Varig. Vale citar que uma proposta é uma coisa, fazer uma apresentação referente a um interesse é outra. O Nelson Tanure [empresário dono do "Jornal do Brasil" e da "Gazeta Mercantil", entre outros ativos ]fez uma apresentação, não temos ainda uma proposta formal assinada. O Jaime Toscano também fez uma apresentação e ficou de entregar uma proposta.
Folha Online - Que relação vocês têm com o Conselho de Administração da Varig?
Curi - Extremamente profissional. Promovemos de uma maneira muito rápida uma mudança cultural muito forte, o que deveria ter sido feito durante uma década foi feito em pouquíssimos meses, então é bastante razoável que exista um processo de ajuste. Tínhamos uma organização em que existia um mix muito grande no processo de relacionamento de seus entes principais.
Folha Online - Como o sr. avalia a briga entre sindicatos e administração?
Curi - Existe uma necessidade de todos os stakeholders chegarem ao nível de maturidade que a FRB chegou. A posição dela de acionista e de não intervenção no processo de gestão das empresas do grupo é muito claro. Tenho certeza que num futuro próximo todos esses agentes vão estar integrados e conscientes de uma participação mais cooperativa. Quanto a comentários específicos, isso é do ser humano, somos latinos, não vamos conseguir mudar a característica cultural do nosso povo.
Folha Online - O presidente da Varig, Omar Carneiro da Cunha, costuma dizer que a Varig está se modernizando e deixando de lado a visão mais nacionalista de que deveria interligar todos os pontos do país mesmo com rotas que não fossem rentáveis. Como o sr. vê essa mudança?
Curi: A aviação comercial brasileira tem um papel muito importante de integração. Quando no passado os órgãos responsáveis pela distribuição das linhas entregavam o filé mignon junto com o osso, estrategicamente para o país entendo que essa era a melhor modelagem. Infelizmente, por uma decisão que não cabe a mim julgar, a realidade hoje é diferente e permite que uma empresa chegue para operar apenas o filé mignon. Do meu ponto de vista isso é preocupante quando se pensa numa visão estratégica de país. Dentro dessa realidade, a Varig está tentando reestruturar suas receitas e despesas para competir no cenário real.
Folha Online - Recentemente, o presidente do Conselho de Administração da Varig, David Zylbersztajn, afirmou que a Varig pode se tornar uma empresa de baixa tarifa de acordo com a orientação do novo controlador. O sr. avalia que no Brasil só há espaço para empresas de 'low coast, low fare'?
Curi - Os mercados nacional e internacional têm oportunidades em todas as áreas. O fundamental nas organizações é que elas procurem identificar primeiro seu foco e depois entender o mercado como um todo para que elas possam ganhar na complementaridade. O mercado é muito diferenciado em suas rotas. De outro lado, independente do preço, você tem que ter uma estrutura de custo compatível com o produto. Num mercado extremamente competitivo é necessário ter margens razoáveis para cada produto porque existem influências complexas, como o preço do combustível, os relacionamentos internacionais e possíveis atentados. Existe um mix sobre o qual você não tem nenhum controle.
Folha Online - Existe uma expectativa de quando a Varig poderá, de fato, se recuperar?
Curi - Do meu ponto de vista, a Varig é hoje o melhor negócio da América Latina. O novo controlador da Varig terá feito o melhor negócio no mínimo nos próximos dez anos. O prazo de recuperação vai depender da negociação, da participação dos credores e da capacidade dos novos investidores em estabelecer uma nova capilaridade. Se a empresa conseguiu suportar toda essa crise, com todas as dificuldades de crédito nacional e internacional, imagine como será quando ela estiver capitalizada.
Folha Online - O Comitê de Credores vai ser formado em assembléia no sábado. Vocês vão participar da reunião?
Curi - Estaremos representados pelos nossos advogados.
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