Recebi por email, e deixo aqui.
Quaisquer que sejam as conclusões da investigação em curso do recente
e trágico acidente da TAM, estou convicto de que Kleyber e Stephanini
não o desejavam; que envidaram seus melhores esforços no sentido de
evitá-lo; que esperavam entregar seus passageiros sãos e salvos a
seus familiares e amigos. Descansem em paz, companheiros, e um bom vôo
para o novo destino.
Não conheci pessoalmente nem Kleyber nem Stephanini, mas isso não
importa. Eram aviadores como eu. Com eles compartilhei o mesmo céu, os
mesmos aeroportos, os mesmos prazeres e tensões da profissão. Talvez
um deles, numa tarde perdida no tempo, estivesse na cadeira da esquerda
daquele avião alinhado na cabeceira da pista 35L do Aeroporto de
Congonhas, aguardando autorização da torre para decolar, enquanto eu,
de meu Boeing 737-500, esperava, numa longa fila, a minha vez de entrar
na arena. A cada decolagem, a
cabeceira era ocupada pelo avião seguinte, e o mesmo ritual se repetia.
Era uma sucessão de momentos solenes e mágicos, como aquele em que o
touros encaram os toureiros antes dos embates finais. Naqueles
momentos, éramos todos irmãos. De tribos diferentes, mas irmãos.
Sabíamos dos perigos que diariamente nos rondavam. Eram ossos de um
ofício perigoso, no qual as conseqüências de falhas humanas são
muitas vezes catastróficas.
Éramos todos dependentes emocionais da aviação. Ela nos atraíra
desde meninos com força irresistível. Não houve como escapar a seu
fascínio.
Chegara minha vez. Da cabeceira da pista, observando a fila de aviões
que aguardavam minha partida, sabia que os olhares de meus companheiros
estavam postos no Boeing azul e
branco prestes a se lançar aos céus. Éramos novamente os meninos de
calças curtas que passavam os sábados e domingos nas varandas abertas
dos antigos aeroportos admirando os DC-3, Curtiss Commando, Convair e
Constellations pousando e decolando. Éramos os mesmos,
apenas nossos postos de observação agora eram melhores.
Nunca foi fácil ser aviador. Enfrentar tempestades, pistas curtas e
escorregadias, quase-colisões com outros aviões, acordar de
madrugada, dormir tarde, passar noites voando, sacrificar vida pessoal,
familiar e sentimental, não ver os filhos crescerem,
não ter feriados, natal, ano novo, carnaval, fins de semana com a
família nem com os amigos, comer apressado antes das descidas, sofrer
de gastrite ou úlcera, embranquecer
prematuramente os cabelos. De muita coisas nos privamos, mas jamais
traímos aqueles meninos que um dia olharam para o céu e se
deslumbraram; que não concebiam outra profissão que não a de
aviador. Não era um veterano de cinqüenta e muitos anos quem pilotava
o avião azul e branco naquela tarde distante; era o menino que eu um
dia fora.
Aceitávamos os riscos. Sabíamos que um dia talvez a sorte nos fizesse
despencar do céu.
Mas valia a pena. Em que outra profissão nos sentiríamos como águias
ágeis e velozes?
Que outro trabalho nos brindaria com mágicas noites de luar em
catedrais de alvas nuvens? Onde mais achar crepúsculos assim?
Comandante Carlos Ari César Germano da Silva"
Aos Pilotos do TAM 3054
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Tchimbotinho
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