Fonte: http://www.ibmorumbi.org.br/missoes/noticias_milton.asp
MEVA - Missão Evangélica da Amazônia
Acho que estas palavras não fazem muito sentido para você. Para mim foram quase tão emocionantes quanto um “sim” que ouvi há vinte e cinco anos. A Márcia não vai gostar de ler isto, mas não posso negar o que senti. Vou explicar. Quase todo o nosso trabalho aqui no norte do Brasil é feito em áreas isoladas e de difícil acesso, por isso o avião faz parte do nosso dia a dia. Asas de Socorro, uma missão especializada em transporte aéreo, é responsável pelos vôos e manutenção das aeronaves. Não exagero ao afirmar que sem Asas de Socorro não poderíamos sobreviver nas áreas remotas onde trabalhamos, especialmente entre a etnia ianomâmi. Os vôos, feitos por pilotos missionários experientes, garantem a nossa segurança e tranqüilidade. A base em Boa Vista acompanha o vôo durante todo o percurso e o destino final é comunicado pelo rádio com a frase: Kilo Victor Whisky (prefixo do avião) no solo, seguido do nome da pista ou posto.
No final dos anos setenta, a Missão fez contato com um grupo da etnia ianomâmi, os maitás, que vivia isolado, relativamente perto do posto Palimi-u onde a Meva mantém missionários. Durante muitos anos Curt e eu fizemos visitas a esse grupo levando assistência médica e, acima de tudo, a mensagem mais importante deste mundo. Mais de 150 maitás viviam nessa região, divididos em dois grupos, os Budu-u thelis (povo do rio cheio) e Uxalopii thelis (povo do pássaro amarelo).
As viagens eram feitas de avião até o posto Palimi-u e depois pelo rio Cutaíba (Budu–u) até a região dos maitás. Após muitos anos vivendo juntos, os Uxalopii thelis decidiram-se mudar para outra região. Não podíamos mais alcançá-los pelo rio. As viagens tornaram-se muito mais difíceis. Precisávamos subir o rio Cutaíba e continuar pela mata por uma trilha, levando pesadas mochilas com comida, remédio, rede, roupa etc. durante cerca de 7 horas. Depois de duas horas de caminhada, as mochilas dobram de peso. Esse fenômeno ainda não foi estudado pela física, mas eu garanto que acontece naquela trilha! A solução seria uma pista. Mas como conseguir as permissões necessárias?
A Funai precisaria autorizar e o IBAMA fazer um estudo sobre o impacto ambiental e nós sabíamos que nenhuma das duas entidades faria nada para nos ajudar. Um dia fui convocado para uma das muitas reuniões de que preciso participar como presidente da Missão. Detesto reuniões. Meu conceito de inferno inclui longas reuniões diárias. Essa seria uma delas. Índices e avaliação de indicadores de saúde nos postos da Meva. Queriam saber do atendimento na área maitá.
Os indicadores estavam abaixo do esperado. Expliquei a situação. Precisávamos de helicóptero para a vacinação. Alguém sugeriu que construíssemos uma pista. Olhei para o representante da Funai. Ele concordou. Respondi displicentemente que iríamos estudar a possibilidade. Lá no fundo eu gritei: aleluia!
Com a ajuda de irmãos da 1a. Igreja Batista em Porto Alegre, parceira no projeto, começamos a empreitada. Quanto trabalho! Levar os equipamentos nas costas, toda a comida para 7 gaúchos bons de trabalho e de garfo! Meu amigo e líder da equipe, pastor Daniel Reis, descreveu a viagem pela trilha como uma das experiências mais difíceis da sua vida.
Ele concordou com a minha teoria do aumento de peso da mochila naquele trecho. Derrubar árvores, queimar tocos, nivelar, cozinhar em fogueira, tomar banho em igarapé (riozinho)! Que turma boa! Trabalharam incansavelmente, mas ainda faltava muito para ser feito quando retornaram para o sul do país.
O trabalho na pista ficou parado. Precisávamos de ajuda. Estamos sempre com menos pessoal do que precisamos para manter a Missão funcionando. Curt e eu decidimos ir para o Halikatu-u em novembro. Em outubro, Curt sofreu um acidente que quase lhe custou a vida. O que fazer? André Marques, colega e amigo missionário, aceitou o desafio. Iríamos os dois terminar a pista. Mas, seria possível? Iríamos contar apenas com os maitás para o trabalho. Quando chegamos na aldeia, olhamos o trabalho feito anteriormente. Quase não víamos a pista, estava coberta de mato. Fiz uma reunião com os lideres.
Os Budu-U thelis estavam visitando a aldeia. Todos disseram que iriam trabalhar muito para nos ajudar. Depois de quase 24 anos de trabalho entre o povo ianomâmi, eu sabia que isso significava muito pouco, mas na manhã seguinte mais de 100 indígenas estavam trabalhando. O fogo queimava o capim e as mulheres tiravam com pesadas cestas a terra removida enquanto os homens derrubavam árvores e queimavam os tocos. E assim foi durante todo o tempo que passamos lá. Alguns dias tínhamos todos os maitás, até velhos e crianças trabalhando. Vou encurtar a história. Quando saímos de lá, quatrocentos metros de pista estavam prontos. Conversei com o piloto e resolvemos tentar um pouso na semana seguinte. Voltamos para Palimi-u.
No dia 25 de fevereiro decolamos, o piloto e eu, em direção ao Halikatu-u. Que sensação incrível! Em sete minutos estávamos sobrevoando a aldeia. Fiquei impressionado! Os uxalopii thelis tinham escolhido morar no único local em toda a região onde era possível fazer uma pista. Que visão! Cercada por montanhas muito altas, lá estava a nossa pista no fim do mundo. Fizemos um sobrevôo. Então o piloto Timóteo Alt disse que iria tentar o pouso. Circundamos mais uma vez a aldeia, agora a baixa altitude. Estávamos abaixo do topo das montanhas com as árvores da encosta acima de nós.
O avião entrou na grande final antes do pouso. Meu coração disparou. Em meio à excitação do momento, muitos pensamentos vieram à minha mente. Será que medimos a pista direito? Será que alguém fez buracos para tirar tatu? Será que alguém vai correr pela pista na hora do pouso? Será que as crianças continuaram procurando batata doce na pista e a encheram de pequenas covas? Será que...
O avião baixou os “flaps” e foi perdendo altitude. O solo se aproximava. Com perícia o piloto evitou os primeiros metros da pista. O avião tocou o solo e correu livre. Que emoção! Glórias a Deus e aleluias foram gritado enquanto o avião taxiava. Avião pentecostal! Quando o motor parou, os índios cercaram o avião, saídos não sei de onde. Soltei o cinto de segurança e desci. Abraçado aos meus amigos dançamos e rolamos na pista. Inesquecível! Ouvi uma frase de significado profundo: Miudi wa walokem! Milton, você veio!

O 'Kilo Victor Whisky' no solo em Halikatu-u
Pensei nos mais de 20 anos que haviam se passado desde o nosso primeiro contato. Lembrei-me da viagem levando uma canoa de alumínio para intensificarmos as visitas àquele grupo de Boa Vista até Palimi-u e que quase custou a vida do Curt e a minha. Lembrei-me do meu amigo num leito de hospital em Campinas. Ele deveria estar ali! Trabalhou por isso muito mais que eu! Lembrei-me dos gaúchos que cruzaram o país para nos ajudar, mas não puderam vivenciar esse dia. Pensei no André que aceitou o convite para uma missão humanamente impossível. Lembrei-me da Operação Mobilização que investiu tanto para ver a pista concluída. Mas, acima de tudo, lembrei-me do Senhor, o Soberano, o único capaz de amar tanto aquele povo a ponto de morrer por ele.
Ficamos na pista tempo suficiente para explicar algumas melhorias que precisavam ser feitas e atender a um velho índio doente, mas o que senti naquela tarde vai ficar comigo pelo resto da vida.
O avião correu e ganhou altura. Os corpos nus e pintados passaram rapidamente pela minha janela e não puderam ouvir o que eu disse: Waiha, ya walokõkii (eu vou voltar).
Quando você estiver lendo esta carta estarei mais uma vez entre os maitás do Halikatu-u. Ainda há muito para ser feito. Continue orando por nós porque essa história não terminou ainda.
Nossa família vai bem. O Timóteo, pela graça de Deus, termina o curso de Jornalismo na PUC Campinas este ano. A Taináh continua namorando o Ermenegildo. Ouvi um boato sobre noivado. Não vou deixar, acho. Ela é muito nova. Não vai ser o primeiro que aparece que vai levando assim minha filha sem mais nem menos. Vamos ver. A Márcia continua uma graça e trabalhando muito na tesouraria da Missão. Completamos 25 anos de casados no final de dezembro de 2003. Começaríamos tudo de novo.
Vou terminar a carta. Já escrevi muito, e esse assunto da Taináh acaba me deixando de mau humor. (Lá no fundo eu gosto da idéia. Mas preciso manter a pose!)
No amor do Senhor,
Milton Camargo


