Esta eu obtive da página oficial do Esquadrão de Demonstração Aérea da FAB (Esquadrilha da Fumaça, para os íntimos
AIFP
Na verdade não sei como funcionam hoje as comunicações de apoio logístico dentro do Sistema Manutenção da FAB. Mas há alguns anos, quando uma aeronave ficava indisponível por não existir peça na prateleira do almoxarifado do Esquadrão ou Esquadrilha, no caso da Fumaça fase T-6, tínhamos de passar um rádio-telegrama com a sigla que compunha o texto final "AIFP" (Aeronave Indisponível por Falta de Peça). Isto significava que aquele avião teria de ficar no chão (grounded) até que chegasse do Parque de Aeronáutica ou da Fábrica a peça em questão. Portanto, avião AIFP é avião que não voa temporariamente.
Como todos sabem, pelo menos aqueles que freqüentam a comunidade da aviação aerodesportiva e que acompanham a história da Esquadrilha da Fumaça não desconhecem que o nosso coronel Braga na época que liderava a Esquadrilha era o piloto mais voado do Brasil em T-6. Hoje, reconhecidamente é apontado no livro Guiness de Recordes o mais voado do mundo.
Deste modo, e sem sombra de dúvida, nós que voamos o T-6 sabemos que não é uma aeronave que se possa chamar de "tu" ou de "você". Daí o merecimento.
Quando víamos o nosso antigo chefe Braga livrar-se dos suspensórios de segurança e de seu pára-quedas, abandonado a nacele do seu avião, lá no entardecer do dia, após mais uma missão de muita responsabilidade, para o descanso merecido comentávamos entre nós: "É, este avião está AIFP" tamanha era a integração piloto-máquina entre o coronel Braga e o T-6 (NA).
Hoje, o "mito" Braga que ainda voa T-6, não gosta de ser, usando de sua modéstia, rotulado de "lenda viva" da nossa Aviação Brasileira.
Quando voávamos na sua Ala, a meio metro, asa com asa, não ignorávamos toda aquela experiência e domínio que possuía ao liderar uma esquadrilha acrobática. Nossa confiança era muito grande. Quanto mais perto estávamos dele, mais nos sentíamos seguros. Ocorre que em algumas manobras seu avião tinha de se separar. Como, por exemplo, no desfolhado para baixo e para cima, cobrinha, etc. E ao final destas manobras, comandava o sinal de reunir (balanceamento das asas).
Como um pássaro-mãe chamava seus filhotes para debaixo de sua asa. E cada um de nós apressávamos para, reunidos, iniciarmos outra manobra. Como de costume, a reunião se fazia seguindo uma cena seqüência: o n.º 2 reunia primeiro e em seguida os outros. O n.º 2, o então tenente Land (hoje coronel), gozador e brincalhão reunia sempre com alguma coisa para dizer ao chefe, tal como: "O chefe está ficando velho... Essa cobrinha foi muito chó-chó (fraca)". E por ai ia... Mas o Braga, já acostumado, não lhe dava atenção e, com sua fleuma, não respondia.
Esta introdução que fiz é para justificar mais um fato pitoresco da nossa memória, acontecido nos idos de 1971 em uma viagem ao Paraná.
É costume da Esquadrilha formar uma cobrinha de apresentação. Assim sendo, durante uma passagem pelo dorso (vôo de cabeça para baixo), o Braga sentiu uma batida estranha em seu capacete. Algo inusitado que nunca em mais de 19 anos havia acontecido. O manche traseiro do seu avião soltou-se, bateu na sua cabeça e caiu em seu colo. Pensou logo em reunir a Esquadrilha e lembrou-se:
"Está na hora de me vingar do meu Ala 2 (Land)". Comandou, reuniu e ficou esperando o n.º 2 chegar perto. Quando estava bem perto, Land assustou-se com o que estava presenciando:
Braga, segurando o manche de comando no alto da nacele, gritava para que se afastasse e, ato contínuo, balançando-o para todos verem, o lançou no mar.
Aí ninguém entendeu mais nada, muito menos Land, que estava mais perto e receoso. O silêncio foi quebrado pelo som de uma voz vinda do rádio. "Tá OK. Tá bem. Bom de vôo - o mais voado do mundo, mito, lenda viva - AIFP! Mas, voar sem manche é demais!!"
Um abraço e até mais...
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