14/12/2005 - 09h25
Planalto vê compra da Varig com ceticismo
ELIANE CANTANHÊDE
Colunista da Folha
O governo viu com ceticismo e constrangimento a compra da Varig pelo empresário Nelson Tanure, e houve, até um acerto tácito entre Planalto, Ministério da Defesa e empresas credoras de não comentar o assunto. A operação é considerada mais um "tiro n'água" para adiar os estertores da mais emblemática companhia aérea brasileira.
O principal argumento para o descrédito é aritmético: as contas não fecham. Tanure, dono da Docas Investimentos e arrendatário do "Jornal do Brasil" e da "Gazeta Mercantil", obteve o controle da Varig por US$ 112 milhões (R$ 253 milhões), o que não é suficiente para pagar a dívida da companhia nem com a Infraero (administradora estatal de aeroportos), de R$ 450 milhões.
Além disso, o governo vê com desconfiança o interesse de Tanure no mercado de aviação, e o empresário vem sendo chamado nos gabinetes de Brasília de "novo Canhedo", em uma referência a Wagner Canhedo, dono da Vasp --que faliu.
A Varig reconhece um passivo de "mais de R$ 7 bilhões", mas o governo tem em mãos documentos de consultorias independentes e contratadas pela própria Varig dando conta de que esse valor pode ser, na realidade, perto de R$ 9 bilhões.
Mesmo com um eventual encontro de contas com uma causa que a Varig vem ganhando da União na Justiça e que está em última instância, ainda ficariam a descoberto mais de R$ 4 bilhões, na estimativa mais conservadora do passivo.
Conforme o anúncio do negócio, anteontem, Tanure passa a ter 25% das ações ordinárias e o controle do capital votante da Fundação Ruben Berta-Par, controladora da Varig.
Ele esteve no mesmo dia em Brasília para encontros com o vice-presidente da República e ministro da Defesa, José Alencar, e com o presidente da Infraero, Carlos Wilson. Nenhum dos dois se manifestou sobre a questão após o encontro. Alencar disse ontem que o governo não tinha nada com a operação.
Obstáculos
Apesar de o empresário não formalizar um pedido de socorro, inclusive porque a Varig já está em processo de recuperação judicial desde o mês de julho, o governo sabe que, para reerguer a companhia, ele imagina obter investimentos do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social), linhas de crédito do Banco do Brasil, maiores facilidades de pagamento de combustível e isenção das taxas da Infraero. Nenhuma dessas possibilidades é factível.
O principal obstáculo é que Tanure é inadimplente no BNDES e não poderia receber financiamento da instituição, nem mesmo ser beneficiado com a transferência de titularidade de um empréstimo de R$ 40 milhões feito à TAP (companhia aérea estatal de Portugal), recentemente, para a compra de duas empresas vinculadas à Varig --a VEM (de manutenção) e a VarigLog (logística).
Na expectativa do empresário, manifestada em diferentes contatos, ele gostaria de comprar essas duas empresas, "herdando" o financiamento aprovado pelo BNDES à TAP. Conforme a Folha apurou, isso não será feito. O BNDES, aliás, nem foi informado previamente da operação de Tanure com a Varig.
Conforme a Folha apurou, o governo desconfia de que toda a operação tenha ocorrido para encobrir a realidade e ganhar tempo, porque o principal problema da Varig são os credores internacionais, que ameaçam até com o arresto de aeronaves.
A primeira ameaça nesse sentido foi abortada justamente pelo anúncio de que o BNDES e a TAP estavam entrando na operação de salvamento, e o arresto foi suspenso por ordem da Justiça americana. A Corte de Nova York vai voltar a discutir a questão no próximo dia 22, já com a guinada mal explicada em que a TAP deve sair, e Tanure, entrar no negócio.
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