ÀQUELES QUE COMPARTILHARAM COMIGO A TRISTEZA DESTA VIDA
(carta de despedida de Alberto Santos Dumont)
"O que adianta senhores, viver e não interferir na vivência das pessoas? O que adianta passarmos nesta vida como uma flecha, rápida e imperceptível?
A verdade da vida consiste em fazermos parte, de atuarmos pelo bem do homem, e não como uma triste lembrança de mal agouro, que amarga os sonhos, assim como os ditadores do passado, a fome do presente e o pessimismo do futuro. Viver consiste no dia a dia, e não no amanhã. É atuar descompromissadamente a favor do próximo, pois já dizia o poeta "belo dar ao ser solicitado, porém é mais belo dar sem ser solicitado, por haver apenas compreendido".
Senhores, muito sofri. Fui utilizado como joguete, intensificando um panorama caótico e antropofágico. A escravização mental é um de nossos males, o apego ilimitável à materialidade nos corrompe, como a relva exposta ao fogo. Perdemos a noção do que é ético, pois a ética capitalista não preserva a existência da humanidade, ela é em si e por si. É a essência daquilo que de mal temos.
Onde, digam-me, podemos encontrar um refúgio, um subterfúgio, a fim de nos mantermos invulneráveis daquilo que nos aflige? No amor. No amor pelo próximo, no amor pela vida, no amor desapegado e sem interesse, pois daqui nada se leva, somente as boas (ou más) lembranças voluptuosas que levaremos para o Jardim do Éden, ou para algum lugar diametralmente oposto, mais profundo e odioso.
Como sabem, associam minha imagem à da daquele instrumento, que, doravante, o considero um mero instrumento supérfluo e de utilização, sobretudo beligerante. De quanto vale, pergunto-lhes, todo desenvolvimento tecnológico, se o homem não é a medida e o fim dessas coisas? Que ordem é essa que obriga o homem àquilo de mais desprezível e assustador? Se essa exacerbada materialidade nos conduz a um fim nocivo, por que tudo isso tornou um vício?
Senhores, despeço-me de vossas mercês deixando uma mensagem que sirva de ferramenta para, mesmo que minimamente, altere os seus dia-a-dias e suprima, a partir do momento em que tornem conscientizados de tais verdades, a corrupção do mundo: "O homem somente se faz homem na relação com o próximo. O alicerce nas relações é a confiança recíproca. E às vezes somos iludidos pela confiança, mas a desconfiança faz com que sejamos enganados por nós mesmos."
(Alberto Santos Dumont)
*Extraída da página da 10ª turma de Ciências Aeronáuticas da PUC/RS - http://www.firefoxcentral.com/faca10/index2.html
Prezados Senhores,
Esta carta de despedida de Alberto Santos Dumont, apontado como o inventor do avião, deveria ter sido postada no dia 23 de outubro de 2005, data início do ano de comemoração dos 100 anos do aeroplano. Este que, pelo que se observa, não será digno de reconhecimento por parte do Brasil e dos brasileiros. Apesar de não ter sido postada na data simbólica, ainda é tempo de reflexão. Este é o propósito da postagem da carta. Suscitar reflexões. Porque mais do que o inventor do aeroplano, Santos Dumont estava imbuído de humanismo, raro nos tempos contemporâneos. E era como humanista que ele desejaria ser reconhecido, como explanado nesta carta de despedida, e não como o inventor "daquele instrumento supérfluo". O avião era para a integração da humanidade, não para servir aos insteresses da lógica capitalista, que destroi os valores humanos. Que Alberto Santos Dumont seja lembrado, não pelo que fez, nem pelo que foi mas, pelo que demais humano haveria de ser.
Cordiais Saudações,
(carta de despedida de Alberto Santos Dumont)
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Infelizmente, a grande maioria do povo brasileiro não sabe dar valor às coisas nossas, pensando que tudo o que vem, principalmente, da falida cultura norte-americana é o melhor.
Enquanto tivermos essa mentalidade, e formos governados por pessoas do tipo das que estão aí, levaremos séculos para termos respeito, não só para com nós mesmo, mas perante o mundo.
Ano que vem, a comemoração do centenário do 1º vôo de um aparelho mais pesado do que ar, um dos feitos da maior importância para a humanidade, será uma boa oportunidade para darmos início a tudo isso.
Enquanto tivermos essa mentalidade, e formos governados por pessoas do tipo das que estão aí, levaremos séculos para termos respeito, não só para com nós mesmo, mas perante o mundo.
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