Meus prezados:
ENTRE O CÉU E A TERRA - Cinco horas de apreensão
por Genésio Mendes de Seixas - Maj.-Esp.-Fot.-R1
1 - Missão militar
Numa das tardes calorentas do Rio de Janeiro, decolamos com destino a Recife num quadrimotor Hércules C-130 da Força Aérea Brasileira, após o encerramento de mais uma missão de reconhecimento aerofotográfico. Essas missões tinham por finalidade a cobertura fotográfica de extensas áreas a serem mapeadas do território brasileiro, sobre as quais se efetuavam vôos paralelos e eqüidistantes com a aeronave e equipamentos mais avançados da década de 70. A sede do esquadrão operacional (1.o/6.o Grupo de Aviação) era em Recife; estávamos, portanto, em deslocamento de regresso. Em média, a duração dessas missões variava em torno de uma semana.
2 - Pane de pouso
Em vôo direto, a viagem ocorreu dentro da normalidade habitual, a 18 mil pés de altitude, equivalentes a seis mil metros de altura em relação ao nível do mar, baixando nas cercanias do aerporto de Guararapes, baixando mais, recebendo orientação da torre de controle, efetuando o procedimento padrão de descida, chegando a mil pés, alinhando-se com a pista, nivelando, tocando de leve no solo quando, de repente, houve um espanto geral com um "apagão" instantâneo - um baque inesperado, como se retorcessem as estruturas do trem de puso, danificando o dispositivo do sistema de travamento. Eram 23 horas e 15 minutos local. Caso o piloto persistisse na seqüência do pouso, certamente aconteceria uma fatalidade, porque o atrito da ferragem com o concreto geraria centelhas e, do faiscamento, viria a inevitável explosão. No reflexo, o piloto puxou o manche para arremetida imediata. Arremeter, em aviação, é o ato de abandonar os procedimentos finais de pouso para manter o vôo, como se a aeronave estivesse de novo decolando. Foi o que fez, em tempo hábil, o major-aviador Dalton, com a aeronave a toda potência, ligeiramente desnivelada, com apenas meio comprimento de pista para se despregar do solo. E lá foi ela, com suas 40 toneladas de peso sustentadas pela leve brisa que acariciava as águas do Atlântico no litoral nordestino. O altímetro, preguiçoso, indicou afinal o nível de 2.000 pés, dando-nos uma sensação de maior segurança e oportunidade para avaliar a causa do susto.
3 - Providências
A torre de controle do Aeroporto de Guararapes, que acompanhava "pari passu" a situação de emergência, informou o novo teto de permanência para o Hércules avariado, e iniciou-se, com diálogo terra-ar, a seqüência de ações típicas para situações dessa natureza. Foi considerada a quantidade de combustível remanascente nos tanques - 13.000 litros de querosene de aviação - que dariam para voar durante mais de cinco horas, já que o consumo em vôo cruzeiro do C-130 é da ordem de 2.600 litros por hora. Com essa autonomia, poderíamos retornar ao Rio de Janeiro, onde o pouso representaria menor risco, visto contar o Aeroporto do Galeão com sistema de espalhamento de espuma sobre o leito da pista, a fim de diminuir o perigo de centelhamento por atrito, caso fosse necessário o pouso "de barriga".
O coronel-aviador Joaquim Dário de Oliveira, comandante do Esquadrão, avisado em sua residência, apressou-se em assumir pessoalmente a posição de técnico controlador da torre e, em consenso com o Controle do Galeão, com o Oficial de Operações da Unidade Aérea, com o comandante e mecânico do avião, optou-se por permanecer sobrevoando as cercanias de Recife. A inexistência do dispositivo de espuma, para evitar faíscas, estava sendo compensada pela chuva fina e contínua que, no momento, caía sobre a capital pernambucana.
A partir de então, o Centro Meteorológico passou a analisar os boletins de previsão do tempo a cada 10 minutos, sendo que normalmente, naquela época, isso era feito de meia em meia hora. O vôo seria mantido até que a reserva de combustível ficasse reduzida a 500 litros para reduzir o peso da aeronave, algo em torno de 12 toneladas, e minimizar os perigos de um possível insucesso na aterrissagem. Foi assim que ficamos condenados à lenta agonia, vendo os instrumentos de bordo indicarem, vagarosamente, os valores decrescentes da reserva de querosena nos tanques. O comandante do C-130, major Dalton, recém-chegado ao Esquadrão, cedeu sua posição de 1.o piloto ao capitão José Luiz Coelho, em viagem a bordo como passageiro, pois aguardava o desligamento e transferência para outra unidade aérea em Porto Alegre. Este oficial aviador havia servido por longos anos no Esquadrão, acumulando toda a experiência necessária naquele tipo de aeronave.
4 - Atitude de emergência
Além de uma coleção de cartas aeronáuticas, havia no quadrimotor quatro volumosos encadernados de ordens técnicas, orientações para sobrevivência na selva e no mar, manuais diversos e três almanaques de efemérides para navegação astronômica. Uma verdadeira biblioteca. O suboficial Shobiner, mecânico-chefe da aeronave, recorreu às instruções técnicas, traduzindo-as e seguindo todos os passos previstos. Sob o piso da aeronave, num invólucro de madeira apropriada, encontraram adaptadores, ganchos e correntes, tudo como constava do manual para fixação da barra da trava danificada. Os riscos do pouso seriam, portanto, tanto menores quanto maior fosse a habilidade do piloto. O peso do avião também deveria ser reduzido ao mínimo possível. Não havia carga alijável.
Às 04:30 da madrugada foi transmitida a seguinte mensagem: - "Torre de comando, atingindo nível de reserva de combustível. Pronto para procedimento de descida. FAB 2460."
Por convenção, 1 toque curto de sirene era o alarme de que havia uma emergência a bordo. Este sinal já havia soado logo na primeira tentativa de pouso. Agora esperávamos os 2 toques, que correspondiam à ordem para proteger a cabeça com a almofada do assento, juntar os cotovelos à frente do rosto, fixar-se no banco com o cinto de segurança travado, preparando-se para o impacto. Pelo alto-falante foi dada a última ordem: - "O avião será freado no meio da pista e, depois de paralisado, no apagar das luzes e abrir das portas, tripulantes e passageiros desembarcar-se-ão, afastando-se do local imediatamente." O terceiro toque de alarme seria um toque contínuo, que significava "alerta total".
5 - No Hospital da Aeronáutica
O fichário médico estava atualizado, com as 18 folhas informativas individuais, contendo dados pessoais, como tipo sangüíneo, religião, etc. Dezoito era o número de militares a bordo: dez tripulantes e oito passageiros. Para disponibilizar uma enfermaria com 18 leitos, surgiu um pequeno impasse: uma mãe não admitia que o enfermeiro tirasse dali o berço com o filho recém-nascido e também não permitia que tocassem no frasco de soro. Frente à altercação, o médico diretor da Unidade Hospitalar interveio, e teve que usar a força para impor o propósito da evacuação. O instinto materno foi obrigado a curvar-se ante a situação de emergência, e porque à mãe, no período de resguardo, não convinha descobrir que um dos usuários do leito em disputa poderia ser o próprio esposo, o capitão Coelho.
6 - O pouso da águia manca
De cima via-se a pista para o livre pouso, molhada como se chorasse, e observada pelo olhar atento do pessoal da segurança de vôo e pelos jornalistas. Em paralelo com a faixa de pouso, a pista de rolamento foi tomada pelo comboio, destacando-se a condução "follow me" do Oficial de Operações à frente, seguida pelos carros contra-incêndio do aerporto, pelas ambulâncias e pelos veículos de resgate. Havia tanto viaturas da cidade do Recife quanto da Base Aérea e do Hospital da Aeronáutica.
Trem de pouso baixado, com uma roda travada e o suporte da outra amarrado, por dentro, com um trambolho de ganchos e correntes. No altímetro, 50, 40, 30... pés e, no ar, o som agudo e contínuo da sirene, indicando que a situação era de alerta total, apesar de todos saberem disso muito bem. E, com esse "apito de chamar anjos", os enormes pneus do C-130 tocaram o asfalto encharcado pela chuva providencial. A algumas centenas de metros em rolamento, o sistema de reversão dos motores foi acionado, uma asa mais baixa que a outra, seguindo-se a paralisação total das turbinas no meio da pista. Luzes apagadas, portas abertas, passageiros e tripulantes fora da aeronave e, por último, sob aplausos, o capitão Luiz Coelho, responsável em grande parte pelo êxito obtido na perigosa operação de emergência. Foi a perícia, o preparo da tripulação e a vontade de viver que evitaram o pior. Aqueles 18 leitos do Hospital, desta vez, foram ser utilizados.
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Odisséia de um C-130 avariado...
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