A380 é mais uma peça da disputa globalizada
O Estado de S. Paulo - 28/04/2005
O avião faz os homens sonharem desde Ícaro e Leonardo da Vinci. Era, portanto, fatal que o lançamento de um monstro como o futuro Airbus 380, previsto para levar de 555 a 800 passageiros, na manhã de ontem, em Toulouse, no sul da França, fosse um espetáculo mirabolante. Mas o espetáculo ficou ainda mais fascinante, enquanto se elevava para o céu azul a máquina fantástica, porque um outro ator foi convidado para a festa: a Boeing, ou seja, a fábrica que faz, há muitos anos, uma concorrência mortal à Airbus. Claro, a Boeing não estava em Toulouse. Não. O inimigo da Airbus estava invisível, longe e ainda mais feroz. Enquanto os mil engenheiros da Airbus estavam com a cabeça virada para cima, para admirar as primeiras voltas de seu prodígio (Airbus 380), a Boeing, em Detroit, anunciava encomendas excepcionais para seus aparelhos: a Air Canada comprou 14 Boeing 787, o futuro Boeing que voará em 2008, e a Air India comprou 50 aviões da Boeing, dos quais 27 exemplares desse famoso 787, o avião que faz da economia de combustível sua grande arma.
Portanto, a este romance industrial acrescenta-se um elemento de suspense digno de uma produção hollywoodiana: dois gigantes, a Airbus e a Boeing, trocam performances, carnês de venda e insultos por sobre o Atlântico. Mas, como se o roteiro não fosse picante o suficiente, eis que a essa saga industrial se reúnem, intempestivamente, dois outros protagonistas, em papéis secundários, mas que interpretam muito bem e que podem ser levados muito cedo para o alto do cartaz. Esses dois coadjuvantes são a China e os sutiãs.
O que aconteceu? Há alguns dias, o primeiro-ministro francês Raffarin esteve na China. Impressionante. Nós nos adoramos. Nós nos abraçamos. Raffarin estava doce com os anfitriões. Ele assinou contratos. Mas, repentinamente, caiu no meio dessa relação franco-chinesa um objeto imprevisto: depois do fim das cotas de exportação dos produtos têxteis chineses, um Himalaia de camisas, de casacos e calças chinesas se abateu sobre o mundo, sobre a Europa, sobre a França.
Começamos por pensar: no fundo, melhor que esse naufrágio dos produtos têxteis europeus e franceses tenha sido anunciado enquanto o próprio primeiro-ministro francês estava na China. Vamos esperar. E o que vai se passar? Raffarin é charmoso. Ele sorri. Falam das camisas chinesas. "Há algum problema? É? Vamos ver..."
Até na França, estamos enlouquecidos. Os produtores têxteis estão furiosos. Os ministros estão se preparando. Pedem à Comissão Européia de Bruxelas para acabar com o dumping das camisas chinesas. Mas então como explicar a placidez de Raffarin, que não viu necessidade, quando estava em Pequim, de fazer a menor observação aos seus homônimos chineses. Uma elegância? Uma desatenção? Nada disso. A razão era outra: os aviões, o TGV, Carrefour, etc.
Foi um alto funcionário chinês que esclareceu o mistério. Ele disse, em tom cortês, que, para comprar um Airbus ou um Boeing, a China tem de vender 20 milhões de camisetas. E ontem mesmo, no jornal Le Monde, Raffarin respondeu ao argumento chinês: "Os chineses nos lembram maliciosamente que se eles têm exportações, é porque temos importadores."
Boeing, Airbus, as calcinhas de Pequim, os aviões chineses, o romance está em todo o planeta e mostra quanto a globalização está atuando. O que aconteceu ontem em Toulouse estava ligado ao que se passou ao mesmo tempo em Seattle, Detroit, Pequim e Bruxelas.
Essa confusão generalizada nos ajuda a compreender algumas coisas estranhas. Por exemplo, a inércia que a Europa há tempos mostra com relação à questão dos tecidos baratos da China. É que, dos 25 países da Europa, alguns têm uma forte indústria têxtil e se preocupam (a França, por exemplo), enquanto outros não têm setor têxtil e se desinteressam. Esses países europeus sem indústria têxtil vêem, portanto, com outros olhos a avalanche das meias chinesas. Esperam dois benefícios. Por um lado, fazer baixar os preços, graças a tecidos mais baratos. E, por outro, permitir à China lucrar com suas camisas, de maneira que ela possa comprar máquinas, aviões e trens "made in Europe"
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