Pessotti, um brasileiro, cria um microjato aos 72 anos
São José dos Campos (SP), 31 de Março de 2005 - Projetista reconhecido mundialmente lidera o projeto de novo avião. O engenheiro aeronáutico Guido Pessotti, reconhecido como um dos maiores projetistas de aviões do mundo, tendo liderado na Embraer o desenvolvimento de seus principais programas, desde o turboélice Bandeirante até o jato ERJ-145, envolveu-se em um novo desafio tecnológico: o desenvolvimento de um jato executivo que poderá revolucionar a categoria dos chamados microjatos ou VLJ (Very Light Jet), a partir de um modelo bimotor, de baixo custo de aquisição e alcance acima de 1,3 mil milhas náuticas .
Concorrente do modelo VLJ da Embraer, o novo jato, batizado de EV-20 Vantage, está sendo projetado em parceria com a empresa Aeroálcool, de Franca e conta com o suporte financeiro de um milionário americano, Mathews Eller, dono da Eviation Jets. O executivo nomeou Pessotti como presidente da Eviation Jets do Brasil.
Eller, que conquistou a fama como jogador de futebol americano, também é hoje um bem sucedido produtor agrícola e empreendedor imobiliário nos Estados Unidos, mas a paixão pelo mundo da aviação o levou a pensar mais alto. Decidiu apostar no projeto de uma aeronave, cujo acervo tecnológico adquiriu da antiga empresa Visionaire. O avião foi projetado pelo inventor Burt Rettan, o americano que ganhou fama ao mandar o primeiro homem para o espaço numa aventura privada.
Escolhido por Eller, depois de uma minuciosa pesquisa na internet, Pessotti mergulhou fundo na tarefa de transformar o Vantage no VLJ mais competitivo do mercado. Para tanto, Pessotti recrutou um time de projetistas aeronáuticos de primeira linha, a maioria iteanos (formados no ITA) e ex-funcionários da Embraer. O novo avião, antes um monomotor com asas enflechadas para frente, tem agora duas turbinas e capacidade para levar nove passageiros com o peso de 8,5 mil libras ou 3.825 quilos.
"Este será o mais leve, maior e mais veloz jato da sua categoria, pprojetado para voar a uma altitude de 51 mil pés, numa velocidade acima de 807 quilômetros por hora", ressalta. Voar mais alto é diferencial importante para o EV-20, principalmente nos EUA, onde a maior parte dos jatos executivos voa a 41 mil pés. Voar mais alto e mais depressa, segundo Pessotti, também significa gastar menos combustível.
A explicação para tamanho desempenho, segundo Pessotti, é simples. "A 51 mil pés de altitude o EV-20 terá 15% da tração de 8,5 mil libras que tem ao nível do mar". A forma aerodinâmica do novo jato também é outro exemplo de avanço tecnológico do projeto.
"A aeronave terá um escoamento laminar naturalmente controlado, o que contribui para a redução do arrasto e garante maior desempenho para o avião". A estrutura é feita de fibra de carbono impregnada de resina. O preço do jato, menos de US$ 2 milhões, também é considerado um atrativo a mais, num mercado onde os jatos executivos de menor porte não custam menos de US$ 5 milhões.
O mercado para o EV-20 Vantage, que deverá ser lançado até o final deste ano, é estimado por Pessotti em mais de 100 aviões por ano. Estimativas feitas pela Federal Aviation and Administration (FAA) indicam um mercado potencial de 4,5 mil aeronaves VLJ nos próximos 10 anos. Este número, segundo Pessotti, chega a ser até conservador, se comparado à previsão da National Business Aviation Association - NBAA, de 15 mil jatos VLJ em 10 anos.
A decisão de produzir o EV-20 no Brasil, segundo Pessotti, foi tomada pelas facilidades oferecidas pelo País: mão-de-obra qualificada barata e custo de certificação reduzido em relação ao praticado nos EUA e na Europa. A homologação aeronáutica é considerada um dos itens mais caros na campanha de certificação de um novo avião. A homologação aeronáutica no Brasil é feita pelo Centro Técnico Aeroespacial (CTA), que mantém convênio com os principais órgãos homologadores europeus e
norte-americanos.
A localização da linha de produção do EV-20 no Brasil, no entanto, ainda não está definida. "A decisão será tomada pelo presidente da Eviation Jets, Mathews Eller, que virá ao Brasil no próximo dia 15", comenta Pessotti. As opções se dividem entre São Carlos, onde a Aeroálcool tem atividades ou São José dos Campos (SP), onde Pessotti montou um escritório de engenharia, hoje localizado dentro de uma chácara de sua propriedade.
O investimento previsto no desenvolvimento do EV-20, até a sua homologação, está estimado em US$ 3 milhões. Para o lançamento do avião e a instalação do ferramental da produção em série deverão ser gastos mais US$ 10 milhões.
Aos 72 anos de idade, a experiência de projetar um novo jato no Brasil tem sido estimulante para Pessotti. Depois que saiu da Embraer, em 1992, onde atuou como diretor técnico entre 1969 a 1992, Pessotti começou a mostrar as suas habilidades de projetista em outros países do mundo.
Poliglota, o engenheiro não teve dificuldades em se adaptar nos cinco países onde morou por quase 10 anos.
Na Coréia trabalhou para a Agency for Defense Development (ADD) no projeto de um avião turboélice de treinamento militar, o KT-1, equivalente ao Tucano da Embraer, que também foi projetado por ele na década de 80. Foi na Coréia que Pessotti liderou ainda o desenvolvimento do KT-2, avião de combate leve e de treinamento, atualmente em fase de produção.
Três anos depois o engenheiro levou o seu talento para a Dornier, empresa alemã adquirida mais tarde pela americana Fairchild. "Trabalhei lá na transformação do turboélice Dornier 328 em jato e também na definição de um jato de 70 passageiros, o DO 728. Com a saída da Fairchild, o projeto foi engavetado, mas está sendo agora retomado por um grupo chinês em associação com um consórcio alemão.
A trajetória de Pessotti pelo mundo incluiu ainda a indústria aeronáutica da Turquia, onde foi responsável pela implantação de um escritório de projetos e de engenharia e projetou um avião agrícola. Dois anos mais tarde, depois de ter passado pela França, Coréia (por duas vezes) e Romênia, Pessotti voltou ao Brasil e desenvolveu um avião próprio: o GP-101, com as iniciais do seu nome. Avião de treinamento, o monomotor GP-101, acabou sendo vendido para o amigo Ozílio Silva, ex-presidente da Embraer, na época em que a empresa era uma estatal.
Fonte: (Gazeta Mercantil/Caderno A - Pág. 25)(Virgínia Silveira)
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