Nelson Tanure quer comprar a Varig
O Estado de S. Paulo - 17/03/2005
O empresário Nelson Tanure, de 53 anos, é o principal interessado em investir na Varig. O interesse foi manifestado ontem durante reunião pela manhã com o vice-presidente e ministro da Defesa, José Alencar, e os presidentes da Varig, Carlos Luiz Martins, e da Fundação Ruben Berta (FRB), Ernesto Zanata, de acordo com o relato de uma fonte que participou da reunião. Acompanhado de um assessor, Tanure participou apenas da parte final da reunião, que durou três horas.
Não se tratou de valores no encontro, que contou ainda com a presença do diretor-geral do Departamento de Aviação Civil (DAC), Jorge Godinho, e do presidente da Infraero, Carlos Wilson. Mas, uma das propostas em discussão prevê que Tanure investiria apenas na parte operacional da Varig, deixando ao menos parte do passivo de R$ 9,5 bilhões para sua controladora, a Fundação Ruben Berta. O empresário usou de procedimento similar para adquirir os jornais Gazeta Mercantil e Jornal do Brasil. Em ambos os casos, ele não comprou as empresas com seus passivos, apenas alugou as marcas.
Entretanto, por se tratar de uma fundação, com regras e leis próprias diferentes de uma empresa privada, um negócio desse porte precisa contar com um parecer favorável da Procuradoria de Prefeituras e Fundações do Ministério Público. A assessoria de comunicação da procuradoria no Rio Grande do Sul, sede da FRB, informou que o MP só irá se manifestar depois que uma eventual transação estiver registrada na Justiça. Entretanto, o entendimento do procurador de Justiça do MP gaúcho que trata de fundações, Luiz Carlos Ziomkowski, é de que quem comprar a participação da FRB na Varig deverá assumir seu passivo.
A procuradoria informou ainda que, pela lei das fundações, não existe a figura de falência para uma fundação e ela só pode ser extinta por ordem judicial.
Fontes em Brasília afirmam que a grande preocupação de Tanure, manifestada na reunião, é em saber se sua proposta conta com o apoio do governo. Sem esse apoio, nenhuma empresa aérea consegue operar no País, uma vez que a exploração do transporte aéreo é uma concessão pública.
Se o plano de Tanure se concretizar, e ele conseguir comprar ou alugar a marca Varig sem herdar seu passivo, ele terá nas mãos uma receita operacional da ordem de R$ 8 bilhões. O balanço de 2004 da empresa ainda não foi divulgado, mas a expectativa é de que a empresa consiga sair do prejuízo operacional, registrado nos anos anteriores, e exibir, se não um pequeno lucro operacional, ao menos zerar o balanço.
A Varig não confirma nem desmente o interesse de Tanure ou sua participação na reunião. Segundo um executivo da empresa que pediu anonimato, a empresa está de "mãos atadas com o governo, que diz que o investidor tem de ter credibilidade".
Procurado pela reportagem, Tanure negou sua participação na reunião, mas não descartou totalmente seu interesse. Ele contou que esteve de fato em Brasília para uma visita de "cortesia" a Alencar e que encontrou com "o pessoal da Varig", por acaso, na ante-sala da Vice-Presidência. Segundo o empresário, a conversa com Martins durou cerca de 15 minutos e funcionou como uma troca de informações, na qual falou de suas idéias e opiniões sobre a reestruturação da companhia.
"Transmiti minha experiência em administração de empresas e falei o que deveria ser feito para a sua reestruturação", diz Tanure, que está bem informado sobre a companhia, seu objeto de estudo "há mais de um ano", admite. O empresário sabe os números e até diretrizes futuras que teriam sido transmitidas por executivos. "A Varig não vai usar a nova Lei de Falências, que não ajuda a companhia", acrescentou.
O empresário defendeu um acerto de contas entre o governo e a Varig, que em dezembro ganhou no Superior Tribunal de Justiça o direito de ser ressarcida por perdas provocadas por planos econômicos entre 1985 e 1992, um indenização que pode chegar a R$ 3 bilhões. Ele afirmou ainda diz que o Unibanco "errou" nos números da Varig, que tem um endividamento em torno de R$ 6,3 bilhões e não de R$ 9,5 bilhões.
O interesse de grupos portugueses - como Pestana e Banco Espírito Santo - em adquirir uma participação na Varig foi descartado pelo empresário, ao lembrar que regras do setor só permitem 20% de participação de investidor estrangeiro. Perguntado se descartaria totalmente a hipótese de comprar uma participação na Varig, que tem o exato perfil das empresas que ele mesmo admite gostar de comprar - dificuldade financeira, preço em baixa e potencial para mostrar lucro - ele não mostrou resistência.
Na saída da reunião, o vice-presidente Alencar confirmou a existência de propostas para a Varig, mas não falou em nomes. "Acredito que já, já eles terão uma solução", disse, ressaltando que se trata de uma solução "de mercado" e que o governo não vai interferir.
Segundo informou o presidente da Varig na saída da reunião, o Unibanco, contratado para ajudar na elaboração do plano de reestruturação da empresa, teria concluído sua proposta, que foi rejeitada pelo governo. "Estamos mudando o escopo de participação do Unibanco", disse Martins.
Demonstrando certa impaciência ao deixar a reunião, Martins aproveitou para negar que o rombo financeiro da empresa esteja em torno de R$ 9,5 bilhões. "Estão confundido dívidas com contingências e isso tem afetado a companhia", disse. "A Varig é um bom negócio, apesar de a mídia, ultimamente, ter tentado mudar essa percepção". Questionado sobre quais seriam os reais números do balanço da empresa, Martins disse que não poderia informá-los porque também fazem parte da negociação que deve ser conduzida em sigilo
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