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O Boeing 737 e a História de seu Nascimento - PARTE 2

Enviado: Seg Set 03, 2012 22:59
por Marcelo Magalhães
O Boeing 737 e a História de seu Nascimento - PARTE 2

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A Boeing dá o “Go Ahead” para o Programa 737

Inobstante os esforços de Jack Steiner em promover o 737 junto a Bill Allem, além de definir seu desenho, o certo é que até o final de 1964 apenas uma companhia tinha demonstrado interesse firme em adquirir a aeronave e o CEO da Boeing mostrava-se reticente em lançar o projeto com somente um cliente.

Ora, no mercado interno, a American, Mohawk e Braniff haviam optado pelo BAC 1-11, a Eastern inclinava-se pelo DC-9 (do qual viria a fazer uma encomenda firme) e dentre as grandes empresas domésticas americanas apenas a United mostrava-se como uma potencial cliente para o 737 (a empresa havia comprado a Capital Airlines anos antes e tinha necessidade de substituir os mais de 50 Vickers Viscounts que operavam as rotas locais).

Mas do outro lado do Atlântico, um cliente que já operava os 707-320B/C, 707-420, 720B e 727-100 – a “flag carrier” alemã Lufthansa – era a mais propícia a adquirir o 737 para substituir sua frota de Convair 240/340 e Viscounts utilizados nos voos domésticos e países vizinhos.

Entretanto, cortejada também pela Douglas com seu DC-9 – que lhe prometera posições de entrega mais cedo caso a companhia optasse pelo seu jato - a empresa alemã havia anunciado que tomaria uma decisão firme quanto ao 737 ou o DC-9 no dia 16 de fevereiro de 1965.

Reunidos em New Orleans no dia 1º de fevereiro daquele mesmo ano, o conselho de diretores da Boeing, daria seu voto quanto à aprovação ou não da autorização para prosseguir com o programa do 737; ainda sem uma encomenda firme. Dentro do “board” os diretores mais empenhados em dar a aprovação eram Jack Steiner, Crawford Greenewalt, William Reed e D.E. Skinner. A sua tese era de que quanto mais cedo a Boeing desse seu sinal verde para o 737, maior a chance de a Lufthansa, além da Eastern e United se decidirem a encomendar a aeronave. No final do dia, após longas discussões, os diretores acabaram chancelando a ordem para a construção do 737 – condicionada a obter uma encomenda firme da empresa alemã e que a Eastern ou United também colocassem pedidos.

Steiner depois confessou que havia feito lobby para que três diretores votassem a favor do 737, incluindo um que era seu vizinho. Quando Bill Allem soube disso chamou o engenheiro a sua sala e ficou furioso com a confirmação do lobby, dizendo a Steiner para nunca mais fazer aquilo!

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A fuselagem do primeiro 737

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O protótipo do 737, já feita a junção das asas/fuselagem

A Lufthansa decide-se pelo 737

Duas semanas depois da aprovação da Boeing, reuniu-se em Colônia, na Alemanha, o conselho de direção da Lufthansa para escolher entre o DC-9 e o 737. A reunião seria presidida pelo CEO da companhia, Gerhard Hoeltje. Por parte da Boeing encontravam-se Ken Luplow – diretor de vendas, além de outros funcionários graduados.

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Ken Luplow, que fez a apresentação do 737 ao "board" da Lufthansa

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O CEO da Lufthansa, Gerhard Hoeltje, no centro de boné, recebendo em Hamburgo o primeiro 737-130 da empresa.

Hoeltje logo manifestou sua preocupação à Ken Luplow quanto à possibilidade de a Boeing vir a cancelar o projeto mesmo caso a decisão da Lufthansa fosse no sentido de comprar a aeronave. Ken disse ao CEO que isso não viria a acontecer e adiantou que se quisesse poderia obter confirmação direta do diretor da divisão de aeronaves comerciais da Boeing, Bruce Connely . Eram três da manhã em Seattle quando um assustado Connely atendeu o telefonema de Luplow que explicando a situação passou a ligação a Hoeltje. Este recebeu a confirmação de que a Boeing não cancelaria o projeto – uma confirmação na verdade destituída de qualquer suporte, uma vez que se a Boeing não recebesse encomendas da United ou Eastern o 737 viria a ser mesmo cancelado....

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Bruce Connely Diretor Vice-Presidente da divisão de aviões comerciais que foi acordado por Luplow às 3 da manhã para "confirmar" a Hoeltje que o 737 não seria cancelado

Para complicar a situação, a apresentação que Luplow faria aos diretores da Lufthansa começou atrasada – pecado mortal para um alemão – pois os papéis, gráficos e desenhos foram enviados pela Boeing à Colônia em um caixote de madeira lacrado com cadeado! Mas alguém em Seattle simplesmente esquecera de mandar a respectiva chave! Luplow teve de usar um martelo e uma
chave de fenda para resgatar os preciosos documentos do caixote.

Feita a apresentação do 737 ao “board” da Lufthansa esse se reuniu a portas fechadas para deliberar que aeronave encomendar.

Ken Luplow e outros representantes da Boeing esperavam na ante-sala, até que um Holtje com expressão bastante séria saiu para dizer que havia um problema. Luplow logo assumiu que a companhia aérea se decidira pelo DC-9. No Entanto, Holtje disse que seus diretores não estavam ainda convencidos de que a Boeing não cancelaria mesmo o 737 – exigindo uma cláusula de compensação de US$ 10 milhões para o caso de a fabricante cancelar o programa. A política da Boeing era nunca aceitar tais cláusulas penais e Luplow sabia bem disso. No entanto, o advogado da Boeing presente à reunião, Fran Holman, conseguiu uma solução para o impasse: ele disse que Holtje estava fazendo a coisa errada, pois caso a Boeing viesse mesmo a desistir do 737 após a encomenda da Lufthansa a empresa aérea poderia exigir em juízo à título de lucros cessantes da fabricante bem mais do que os US$ 10 milhões. O argumento do advogado foi magistral e convenceu Holtje a finalmente decidir-se pelo 737!

Uma encomenda para 22 aeronaves do modelo ‘100, foi aprovada pelo “board” – com aumento da capacidade de passageiros para 100 em relação à proposta original da Boeing (que previa inicialmente apenas 85 assentos). Essa foi então uma histórica encomenda – a primeira vez que uma empresa estrangeira se tornava lançadora de uma aeronave comercial produzida nos Estados Unidos.

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O primeiro 737 já pronto para seu roll out. Os primeiros 270 B737 foram fabricados em Seattle Boeing Field. Depois a produção foi transferida para Renton, onde já eram montados os 707/720/KC-135 e 727

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O primeiro 737-130 da Lufthansa e ao fundo o protótipo que anos depois acabaria voando para a NASA e hoje se encontra preservado no Museum of Flight, em Seattle Boeing Field

A seguir, em 05 de abril de 1965 foi a vez da United colocar um pedido de 40 exemplares da versão ‘200, aumentada em cerca de 2m em relação à ‘100 e com capacidade para até 130 assentos.

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O primeiro 737-200, para a United, com fuselagem aumentada em 1,82m em relação ao do 737-100

Nascia assim o avião comercial a jato de maior sucesso no mundo, um vencedor que no começo parecia destinado ao fracasso e que hoje é responsável por transportar grande parte do tráfego de passageiros nos mais variados rincões do mundo.

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Uma foto a cores tomada quando do primeiro voo do 737, em 09-FEV-67

Abraços,

Marcelo Magalhães

Re: O Boeing 737 e a História de seu Nascimento - PARTE 2

Enviado: Ter Set 04, 2012 10:33
por FCM
Marcelo Magalhães escreveu:Mas alguém em Seattle simplesmente esquecera de mandar a respectiva chave!
Sensacional! No aguardo da PARTE 3, 4, 5, ...

Re: O Boeing 737 e a História de seu Nascimento - PARTE 2

Enviado: Ter Set 04, 2012 10:45
por Marcelo Magalhães
Fernando C. Milke escreveu:
Marcelo Magalhães escreveu:Mas alguém em Seattle simplesmente esquecera de mandar a respectiva chave!
Sensacional! No aguardo da PARTE 3, 4, 5, ...
Valeu Fernando!

Essa é a parte final mesmo do meu artigo - minha intenção era focar somente nos bastidores que levaram a Boeing a construir o 737, até a encomenda feita pela DLH e UAL.

Claro que muita coisa aconteceu depois disso, mas não era meu propósito adentrar mais adiante neste história.

Abração e obrigado,

Marcelo Magalhães

Re: O Boeing 737 e a História de seu Nascimento - PARTE 2

Enviado: Ter Set 04, 2012 13:07
por EduardoJoseDias
Lá pelos inicio de 1970, eu achava lindo ver o 737 da VASP novinho passando em frente ao Terminal de Cargas da Varig, onde meu pai trabalhava, para um curto descanso nos hangares da Vasp, com as tampas amarelas nos motores. Fiquei mais feliz ainda em 1974 quando a Varig passou a contar com esse avião em sua frota. Lembro que ao ver o 737 PP-VME parado em frente ao Hangar 3 da Varig em Congonhas para visitação do funcionários, falei pro meu pai: Agora a Varig está 5 anos na frente também.

Re: O Boeing 737 e a História de seu Nascimento - PARTE 2

Enviado: Ter Set 04, 2012 18:02
por FCM
Marcelo Magalhães escreveu:Claro que muita coisa aconteceu depois disso, mas não era meu propósito adentrar mais adiante neste história.
Surpreendente como naquela época havia muitas dúvidas quanto a viabilidade do projeto - certamente a Lufthansa foi o ponta pé inicial para este grandioso sucesso de vendas!

Acredito que a maioria de nós já voou ou será passageiro em voos de alguma versão do Boeing 737 - até agora eu já voei em 737-100, 200, 300, 400, 500, 700 e 800, faltam 600 e 900!

Re: O Boeing 737 e a História de seu Nascimento - PARTE 2

Enviado: Ter Set 04, 2012 18:07
por Marcelo Magalhães
Fernando C. Milke escreveu:
Marcelo Magalhães escreveu:Claro que muita coisa aconteceu depois disso, mas não era meu propósito adentrar mais adiante neste história.
Surpreendente como naquela época havia muitas dúvidas quanto a viabilidade do projeto - certamente a Lufthansa foi o ponta pé inicial para este grandioso sucesso de vendas!

Acredito que a maioria de nós já voou ou será passageiro em voos de alguma versão do Boeing 737 - até agora eu já voei em 737-100, 200, 300, 400, 500, 700 e 800, faltam 600 e 900!
Caramba, voastes em quase todas as versões do "baby boeing"!

Acho que da versão '100 deves ter sido um dos poucos brasileiros a voar nele.

Abraços,

Marcelo Magalhães

Re: O Boeing 737 e a História de seu Nascimento - PARTE 2

Enviado: Qua Set 05, 2012 11:05
por FCM
Marcelo Magalhães escreveu:Acho que da versão '100 deves ter sido um dos poucos brasileiros a voar nele.
Pois é, foi muita sorte! Tenho anotado o seguinte: 737-100 (Condor), 737-200 (Varig), 737-300 (Varig, Vasp, TransBrasil, Rio Sul, Nordeste e Webjet), 737-400 (Varig, TransBrasil e BRA), 737-500 (Rio Sul), 737-700 (Varig original e Gol) e 737-800 (Varig original e Gol).

Re: O Boeing 737 e a História de seu Nascimento - PARTE 2

Enviado: Qui Set 06, 2012 10:35
por Marcelo Magalhães
Amigos:

A fonte principal deste trabalho foram dois livros, altamente recomendáveis para quem quer saber mais sobre a história da Boeing e das pessoas que estão por trás dessa organização.

O primeiro, publicado em 1991 por ocasião dos 75 anos da fabricante, é "Legend & Legacy - The Story of Boeing and its People".

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Escrito por Robert J. Serling a pedido da própria Boeing, o livro, com mais de 400pgs, conta desde os primórdios da empresa e de seu fundador, William Boeing, no início dos anos 10, abordando além dos aspectos históricos as muitas estórias por "trás dos bastidores" da empresa, dos principais executivos e engenheiros envolvidos nos projetos da companhia e de como foram tomadas as muitas decisões que resultaram nas aeronaves produzidas entre 1916-1991.

O segundo livro, foi escrito por Joe Sutter, engenheiro da Boeing responsável pelo 747 e que também trabalhou em muitos outros projetos da fabricante desde que nela entrou no curso da 2a Guerra Mundial.

Chama-se "747 - Creating the World's First Jumbo Jet and Other Adventures from a Life in Aviation"

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Ambos livros podem ser encontrados em várias livrarias virtuais, como Amazon, Abebooks e Ebay a preços bem razoáveis.

Abraços,

Marcelo Magalhães