Governo desiste e deixa mercado definir futuro
Enviado: Sáb Abr 09, 2005 22:44
"Governo desiste e deixa mercado definir futuro
ELIANE CANTANHÊDE
COLUNISTA DA FOLHA
O governo esgotou todas as possibilidades para salvar a Varig e jogou a toalha. A expectativa é que a maior e mais tradicional empresa aérea brasileira entre na recém-sancionada Lei de Falências, seja com pedido de recuperação judicial ou até de falência pura e simples. As linhas seriam fatiadas entre TAM, Gol e BRA.
A Folha captou essa expectativa no Planalto, na área econômica, na Defesa e na Justiça. Antes, essas áreas governamentais tinham visões diferentes sobre como agir no caso da Varig. Agora, todas elas têm o mesmo discurso: os compradores potenciais da companhia não são levados a sério e não há o que o poder público possa fazer.
A hipótese considerada mais viável é que a Varig entre com pedido de recuperação judicial, mas há dúvidas sobre o resultado. Nesse caso, não haveria a chamada "sucessão tributária" -ou seja, eventuais novos donos da marca não carregariam as dívidas com a Receita. Mas há controvérsias quanto a quem caberia o passivo trabalhista.
De acordo com detalhado estudo feito pelo Unibanco para a própria Varig, as dívidas da empresa com a Receita Federal e com o INSS são equivalentes. Em dezembro de 2004, eram, respectivamente, R$ 1,719 bilhão e R$ 1,689 bilhão. No caso de falência, ambas ficariam com a Fundação Ruben Berta, atual controladora da companhia. Mas, com pedido de recuperação, haveria disputa na Justiça.
Na avaliação feita em Brasília, o grupo português Pestana não está mais interessado no negócio, a Gol e a TAM preferem simplesmente aguardar um desfecho judicial e herdar o espólio, e os empresários Nelson Tanure ("Jornal do Brasil") e German Efromovich (Ocean Air) "não têm bala na agulha" e seriam "novos Canhedos" -referência a Wagner Canhedo, da Vasp.
O passivo a descoberto da Varig é de R$ 6,4 bilhões, segundo balanço anunciado na quinta-feira, ou de R$ 9,4 bilhões, conforme o estudo feito pelo Unibanco.
O maior credor (63%) é o poder público: Receita, Previdência, Banco do Brasil, Infraero e BR Distribuidora.
Como compensação, a empresa tem obtido sucessivas vitórias judiciais na cobrança de ressarcimento por perdas financeiras acumuladas em planos econômicos de governos anteriores. O processo está em instância final e é estimado em cerca de R$ 2,5 bilhões. O governo recorreu.
Linhas
Apesar de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter se manifestado mais de uma vez a favor de salvar a Varig, especialmente a marca da empresa, os diferentes órgãos de governo estão preocupados agora com a questão mais objetiva: a manutenção das linhas, especialmente as internacionais.
A principal possibilidade é que TAM, Gol e BRA, que está ampliando a participação no mercado, assumam as linhas domésticas mais urgentes, para posterior redistribuição, e que haja uma transição nas linhas internacionais durante os 180 dias previstos para o processo de recuperação judicial. A TAM tem ociosidade de frota, e a Gol está recebendo cinco novos Boeing-737/800 no mês que vem.
Nos meses de transição, a TAM poderia operar Europa e Estados Unidos, e a Gol, a América do Sul, ambas utilizando aeronaves e tripulação da própria Varig, até uma reacomodação do mercado.
Para a passagem definitiva de linhas de uma empresa para outras, é necessário que o governo brasileiro formalize a troca em ofício para os países de destino, com os quais mantém acordos de reciprocidade (equivalência de linhas dos dois países das pontas, para evitar desequilíbrio).
De acordo com o DAC (Departamento de Aviação Civil), a TAM está com 42% do mercado doméstico, a Varig, 31%, e a Gol, 25%. Em janeiro de 2001, a Varig era a líder, com 40%, a TAM tinha 30%, e a recém-criada Gol, 1%. Só em março passado, depois da alta temporada, a Varig cancelou oito trechos internos.
Competição
Os três principais ativos da Varig, na ótica do governo, são a marca, as linhas e a manutenção. A marca, porém, tem sido bombardeada nos últimos anos por causa do crescimento do passivo. As linhas são concessões públicas, e a VEM (Varig Engenharia e Manutenção), com pólos no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, começa a enfrentar concorrência.
A TAM já tem uma oficina de manutenção para Airbus com padrão considerado internacional, em São Carlos (SP), e a Gol promete inaugurar a sua para Boeings no próximo ano, em Confins.
A versão no governo é que o vice-presidente e ministro da Defesa, José Alencar, liquidou a última chance de salvar a marca Varig com apoio oficial, ao descartar a medida provisória, que já estava na Casa Civil, prevendo intervenção na companhia. A MP seria publicada no "Diário Oficial" da União em 12 de outubro de 2004.
Outra decisão desastrosa para a Varig, que está tendo sua concessão de voar renovada normalmente, é o fim do "code-share" (divisão de assentos em vôos) com a TAM, previsto para 2 de maio."
Fonte: Jornal Folha de São Paulo- Folha Dinheiro 09.04.05
ELIANE CANTANHÊDE
COLUNISTA DA FOLHA
O governo esgotou todas as possibilidades para salvar a Varig e jogou a toalha. A expectativa é que a maior e mais tradicional empresa aérea brasileira entre na recém-sancionada Lei de Falências, seja com pedido de recuperação judicial ou até de falência pura e simples. As linhas seriam fatiadas entre TAM, Gol e BRA.
A Folha captou essa expectativa no Planalto, na área econômica, na Defesa e na Justiça. Antes, essas áreas governamentais tinham visões diferentes sobre como agir no caso da Varig. Agora, todas elas têm o mesmo discurso: os compradores potenciais da companhia não são levados a sério e não há o que o poder público possa fazer.
A hipótese considerada mais viável é que a Varig entre com pedido de recuperação judicial, mas há dúvidas sobre o resultado. Nesse caso, não haveria a chamada "sucessão tributária" -ou seja, eventuais novos donos da marca não carregariam as dívidas com a Receita. Mas há controvérsias quanto a quem caberia o passivo trabalhista.
De acordo com detalhado estudo feito pelo Unibanco para a própria Varig, as dívidas da empresa com a Receita Federal e com o INSS são equivalentes. Em dezembro de 2004, eram, respectivamente, R$ 1,719 bilhão e R$ 1,689 bilhão. No caso de falência, ambas ficariam com a Fundação Ruben Berta, atual controladora da companhia. Mas, com pedido de recuperação, haveria disputa na Justiça.
Na avaliação feita em Brasília, o grupo português Pestana não está mais interessado no negócio, a Gol e a TAM preferem simplesmente aguardar um desfecho judicial e herdar o espólio, e os empresários Nelson Tanure ("Jornal do Brasil") e German Efromovich (Ocean Air) "não têm bala na agulha" e seriam "novos Canhedos" -referência a Wagner Canhedo, da Vasp.
O passivo a descoberto da Varig é de R$ 6,4 bilhões, segundo balanço anunciado na quinta-feira, ou de R$ 9,4 bilhões, conforme o estudo feito pelo Unibanco.
O maior credor (63%) é o poder público: Receita, Previdência, Banco do Brasil, Infraero e BR Distribuidora.
Como compensação, a empresa tem obtido sucessivas vitórias judiciais na cobrança de ressarcimento por perdas financeiras acumuladas em planos econômicos de governos anteriores. O processo está em instância final e é estimado em cerca de R$ 2,5 bilhões. O governo recorreu.
Linhas
Apesar de o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter se manifestado mais de uma vez a favor de salvar a Varig, especialmente a marca da empresa, os diferentes órgãos de governo estão preocupados agora com a questão mais objetiva: a manutenção das linhas, especialmente as internacionais.
A principal possibilidade é que TAM, Gol e BRA, que está ampliando a participação no mercado, assumam as linhas domésticas mais urgentes, para posterior redistribuição, e que haja uma transição nas linhas internacionais durante os 180 dias previstos para o processo de recuperação judicial. A TAM tem ociosidade de frota, e a Gol está recebendo cinco novos Boeing-737/800 no mês que vem.
Nos meses de transição, a TAM poderia operar Europa e Estados Unidos, e a Gol, a América do Sul, ambas utilizando aeronaves e tripulação da própria Varig, até uma reacomodação do mercado.
Para a passagem definitiva de linhas de uma empresa para outras, é necessário que o governo brasileiro formalize a troca em ofício para os países de destino, com os quais mantém acordos de reciprocidade (equivalência de linhas dos dois países das pontas, para evitar desequilíbrio).
De acordo com o DAC (Departamento de Aviação Civil), a TAM está com 42% do mercado doméstico, a Varig, 31%, e a Gol, 25%. Em janeiro de 2001, a Varig era a líder, com 40%, a TAM tinha 30%, e a recém-criada Gol, 1%. Só em março passado, depois da alta temporada, a Varig cancelou oito trechos internos.
Competição
Os três principais ativos da Varig, na ótica do governo, são a marca, as linhas e a manutenção. A marca, porém, tem sido bombardeada nos últimos anos por causa do crescimento do passivo. As linhas são concessões públicas, e a VEM (Varig Engenharia e Manutenção), com pólos no Rio Grande do Sul e no Rio de Janeiro, começa a enfrentar concorrência.
A TAM já tem uma oficina de manutenção para Airbus com padrão considerado internacional, em São Carlos (SP), e a Gol promete inaugurar a sua para Boeings no próximo ano, em Confins.
A versão no governo é que o vice-presidente e ministro da Defesa, José Alencar, liquidou a última chance de salvar a marca Varig com apoio oficial, ao descartar a medida provisória, que já estava na Casa Civil, prevendo intervenção na companhia. A MP seria publicada no "Diário Oficial" da União em 12 de outubro de 2004.
Outra decisão desastrosa para a Varig, que está tendo sua concessão de voar renovada normalmente, é o fim do "code-share" (divisão de assentos em vôos) com a TAM, previsto para 2 de maio."
Fonte: Jornal Folha de São Paulo- Folha Dinheiro 09.04.05