Jornal Zero Hora - 12 de March de 2010
O DIA SEGUINTE DOS PILOTOS
Momentos de tensão no Bonanza
Avião da BM que partiu da Capital em direção a Uruguaiana fez aterrissagem forçada porque o trem de pouso não baixou
A pouco menos de dois minutos de tocar a pista da base Aérea de Santa Maria, quarta-feira, a tripulação do Bonanza PT-JX0 da Brigada Militar, trocou as últimas palavras antes da manobra final.
– Agora vamos para o pouso – disse o capitão Felipe Kothe de Oliveira, 30 anos, piloto da aeronave.
– Bom pouso – devolveu o capitão Luiz Henrique Genro, 41 anos, copiloto.
Depois disso, seguiu-se o silêncio na cabine, só interrompido pelo barulho do motor, que logo seria desligado, e pela ação dos flaps, contendo o ar para reduzir os 180 km/h em que voava o pequeno aparelho. Balanço final da operação: tripulação em terra e a salvo, sem problemas, e um avião com um mínimo de estragos. Até chegar a este final feliz, porém, foram cerca de duas horas e 40 minutos de apreensão e muitos procedimentos para que tudo desse certo, como a equipe recordou ontem à tarde no Grupamento Aéreo da BM, em Porto Alegre.
O primeiro sinal de dificuldade do avião que partiu da Capital por volta das 13h foi percebido na escala de Itaqui, a única prevista até o destino, Uruguaiana. O painel indicava que havia problema com o trem de pouso. Trocada a lâmpada, o indicativo permanecia. Estava travado ou não havia baixado. Começaram os contatos com o coronel Paulo Stocker, comandante do grupamento. E a decisão foi retornar até Santa Maria, com mais recursos, onde toda a ação seria desdobrada. Uma passagem a baixa altitude e próxima da torre de controle da base aérea confirmou que o trem de pouso da asa esquerda não havia baixado. Estava declarada a emergência.
100 minutos para gastar combustível
A opção escolhida foi aterrissar de barriga, evitando os riscos de um pouso desequilibrado, sem uma das rodas. Para tanto seria preciso enfrentar uma sequência de várias providências. O tempo para isso: cerca de uma hora e 40 minutos, o suficiente para o Bonanza se ver livre de quase todo o combustível. Não é pouca coisa. O monomotor a pistão da americana Beech Air Craft, para seis passageiros e com autonomia de cinco horas de voo, carrega 140 litros de combustível em cada asa. Portanto, havia um risco sério de incêndio. A estratégia tinha de levar todos esses detalhes em conta. Sabia-se que iria quebrar. O quanto seria este estrago era a grande dúvida, e para ela todo um aparato devia ser montado.
O capitão Felipe, com mais de mil horas voadas, ficou encarregado do plano de aterrissagem, e ao copiloto Luiz Henrique, mais de 300 horas, coube a checagem dos instrumentos, dos procedimentos de emergência e de algo importantíssimo: ele é quem iria sustentar a porta da asa direita – a saída possível para os dois – aberta, carregar o extintor de incêndio e os documentos do Bonanza. Quando o aparelho parasse, bateria no cinto de segurança e seria o primeiro a deixá-lo rapidamente, liberando a passagem para o piloto. Tudo isso em segundos.
Avião se arrastou por 30 metros até parar
Em terra, a equipe de emergência estava pronta. O Bonanza se aproximou da pista de 2.700m por 45m de largura a 100 km/h e a cerca de meio metro de altura, planando, o capitão Felipe pilotando com a ponta dos dedos, com a sensação de que a batida seria mais forte do que ele esperava, o copiloto achando que tudo daria certo.
Então, veio o barulho da fuselagem se chocando com o asfalto, as fagulhas do atrito e o avião se arrastando por 30 metros, quase em linha reta, até parar. Um cheio forte de queimado e a água espalhada preventivamente pelos bombeiros foi tudo o que restou do susto. Era final de tarde, passava pouco das 17h30min. Tinha sido um bom pouso, e a aeronave iria contabilizar apenas pequenos danos na fuselagem, nos flaps e na hélice.
O atendimento médico registrou a pressão sanguínea de Felipe em 17 x 10 e a de Luiz Henrique em inacreditáveis 13 x 8, como se estivesse no sofá de casa, assistindo a um filme. Isso tem uma explicação: os pilotos são treinados para enfrentar situações como essa. Também são aconselhados a falar pouco sobre os imprevistos do trabalho para não alarmar a família.
Neste caso, como haveria noticiário sobre a aterrissagem forçada, foram instruídos a falar com suas casas. Assim, foi com interferência de ruídos na ligação por celular que Luciane, mulher do capitão Felipe, grávida de três meses e meio, entendeu que o marido tinha padecido de uma dor de barriga, que se transformou logo em seus ouvidos num pouso de barriga para finalmente ela se dar conta do que havia ocorrido e comentar:
– Ah, mas então a coisa foi séria.
Foi. Mas com o melhor desfecho possível.
mauro.toralles@zerohora.com.br
