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Vôo de volta à normalidade (Eliane Cantanhêde)

Enviado: Ter Jan 22, 2008 23:29
por SBLO
Prezados Colegas:
Reproduzo, na íntegra, a coluna da jornalista Eliane Cantanhêde, veiculada no site do jornal Folha de São Paulo.
Abs

23/01/2008
Vôo de volta à normalidade

Vamos pensar juntos:

1 - O sistema de controle aéreo é o mesmo, as companhias aéreas continuam as mesmas (ou são menos ainda), os aeroportos continuam os mesmos, as pistas continuam as mesmas. E não houve uma mudança climática significativa (entre dilúvio sem parar e céu de brigadeiro contínuo).

Então, por que, de repente, não mais que de repente, o caos aéreo que enlouqueceu as pessoas durante um ano evaporou?

2 - O aeroporto de Congonhas continua o mesmo, o pátio continua o mesmo, as pistas continuam as mesmas, os prédios ao redor continuam os mesmos, os aviões continuam os mesmos, o sistema de controle aéreo continua o mesmo.

Então, por que, de repente, não mais que de repente, Congonhas foi desativado para várias operações (inclusive de escalas e conexões) e também de repente, não mais que de repente, foi anunciado que tudo vai voltar a ser como era antes?

A resposta é uma só: não houve governo durante um ano na aviação civil, agora está voltando a haver.

O choque do jato Legacy com o Boeing da Gol, que matou 154 pessoas em 29 de setembro de 2006, foi terrível e traumatizante, mas foi um episódio em si. Não justifica, ou não justificaria que dali em diante os atrasos, cancelamentos e crises fossem se multiplicando e transformassem tudo num caos, o caos aéreo.

Quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva desautorizou o Comando da Aeronáutica e tratou uma insubordinação militar como questão sindical, ele deu gás à crise. O governo deveria ter sido duro com os líderes, mas atendendo as justas reivindicações para melhorar o sistema fez o contrário: passou a mão na cabeça de militar insubordinado e não atendeu a reivindicação nenhuma.

O movimento dos controladores de vôo ficou organizado e forte. Eles fizeram operações-padrões e provocaram um efeito-cascata: já que virou bagunça, as companhias aéreas decidiram levar a melhor, a Infraero parecia uma barata-tonta e a Anac... bem, a Anac era aquilo que a gente está careca de saber, cheia de apadrinhados políticos e nenhum estofo técnico. Deu no que deu. Um estouro da boiada. E quem pagou o pato foram os consumidores, os pilotos, as comissárias, toda uma rede de agentes do setor.

Já havia passado meses de crise, sem controle, quando finalmente Lula viu que tinha feito tudo errado e restituiu a autoridade ao Comando da Aeronáutica, que passou a agir e a colocar a casa em ordem. Um tanto tarde demais. Enquanto a FAB tentava resolver a crise do sistema de controle de vôo, a Infraero já estava fora de controle, a Anac já pintava e bordava. A ponto de levar uma norma fajuta à Justiça para liberar a pista de Congonhas. E veio o novo acidente, com o Airbus da TAM, matando quase 200 pessoas.

O caos só piorou. A Infraero acusava a Anac, que acusava a FAB, que acusava as companhias. A falta de governo alimentou conflitos dentro do próprio governo. Daí a finalmente trocar tudo, de alto a baixo, com meses e meses de atraso.

Queiramos ou não, a verdade é que dezembro de 2007 marcou uma espécie de volta à normalidade. Isso significa que a operação foi uma maravilha? Não, não foi. Mas a normalidade não é uma maravilha nos grandes aeroportos do mundo, especialmente em momentos de pico, como Natal e Ano Novo. Mas a coisa funcionou razoavelmente bem para as circunstâncias, em especial na comparação com o que houve durante meses. Não vimos manchetes, fotos, gritos, lágrimas, longos noticiários sobre caos aéreo, vimos? Não, não vimos.

A volta à normalidade em pleno dezembro/janeiro e a promessa de volta às operações habituais de Congonhas só confirmam que o sistema não estava podre, apenas foi manipulado por falta de comando, falta de governo. Foi só o governo voltar a agir que o sistema está voltando a funcionar.

Agora, é ambicionar que a segurança também volte a ser a prioridade número um e que ninguém se contente com a mera "normalidade". É preciso evoluir para condições melhores de operação do centro nevrálgico, que é São Paulo, expandir a cobertura do país e ter uma relação profissional e séria com as companhias aéreas -- que, afinal, são concessões públicas. A nova Anac parece estar neste caminho promissor. A conferir.

Eliane Cantanhêde é colunista da Folha, desde 1997, e comenta governos, política interna e externa, defesa, área social e comportamento. Participou intensamente da cobertura do choque entre o Boeing da Gol e o jato Legacy, em setembro de 2006.

E-mail: elianec@uol.com.br

http://www1.folha.uol.com.br/folha/pens ... 6067.shtml

Enviado: Qua Jan 23, 2008 09:40
por BenitoRBP
A volta à normalidade em pleno dezembro/janeiro e a promessa de volta às operações habituais de Congonhas só confirmam que o sistema não estava podre, apenas foi manipulado por falta de comando, falta de governo. Foi só o governo voltar a agir que o sistema está voltando a funcionar.
Achei que a coluna começou tão bem, que juro que não esperava este tipo de conclusão...

Então o sistema não estava podre???foi só uma cartase coletiva por conta de uma falta de comando temporária? A mesma FAB que gerência o sistema a anos resolveu a crise dos controladores, que por sinal ela mesma criou ou pelo menos deixou acontecer?

Que conclusão mediocre..

Sim, as coisas voltaram ao normal, voltamos a esconder as falhas do sistema, o que importa são os voos não atrasar, o resto é resto....até o proximo acidente.

TAPETE MAGICO

Enviado: Qua Jan 23, 2008 10:39
por Paulo Hess
Tá certo Benito...Empurraram tudo para baixo do tapete. O perigo é alguém ou algum fato novo levantar o tapete e de novo estaremos perdidos. Então...trocam o ministro, trocam o comando e empurram tudo de novo (agora com a barriga) para baixo do novo tapete...O Brasil será assim até quando?

Enviado: Qua Jan 23, 2008 18:06
por elmus vat
Não concordo com Paulo e Benito. Na verdade não havia ninguém mandando antes; agora tem. Estejamos de acordo ou não com as atitudes, agora alguém manda. Só para comparar, quando ninguém mandava na Varig, quando não tinha dono deu no que deu. Agora tem dono, devagar vai indo para os trilhos. A palavra chave é ter quem manda, só isso.

Enviado: Qua Jan 30, 2008 09:12
por BenitoRBP
Elmus, até concordo que ter quem manda...melhora muito as coisas....já até compartilhei desta opinião com vc no post que falava da Varig....
A questão é dizer que não temos uma crise estrutural, que tudo voltou a normalidade, que os acontecimentos foram uma simples questão de "falta de comando".
Em tese os problemas continuam os mesmos, só existe uma política um pouco melhor de combate aos efeitos da falta de estrutura, impedindo aquele jogo de empurra, e de proveito próprio que havia antes.
Claro, isto já é um começo.
Mas continuamos com os mesmos problemas de contrele de tráfego áereo, de aeroportos saturados, de controladores insatisfeitos, de empresas tripudiando passageiros.
A mesma aéronautica continua gerenciando o espaço áereo, da mesma forma que antes, isso não mudou. Pelo contrário o problema antes exposto volta a ser tratado como de "segurança nacional".
As empresas continuam as mesmas, preferem pagar multas do que rever algumas práticas que apesar de lucrativas, são extremamente lesivas aos passageiros. E isso não mudou.
Os aeroportos continuam saturados, só ouço noticias de "possíveis" investimentos, fatos concretos mesmo, não vejo nada. Pelo contrário, só ouço adiamento de projetos em POA e CWB.
E assim vamos.
Existe uma resposta melhor a sintomas da crise? Sim existe.
Mas nada para curar a doença.
Por isso achei o editorial ruim.
Faltava comando? Isso é óbvio! O problema erra só isso? Evidentemente que não. A coluna de cunho mais politico que aeronáutico( Aliais é uma coluna de politica!!hehe) coloca o problema como se fosse uma simples crise de gestão, e que já esta sendo resolvido.
Mas o buraco é amis embaixo e as vezes emdidas paleativas são até piores, pois escondem o problema por mais tempo.

Abraço.

Enviado: Qua Jan 30, 2008 10:42
por Feith
Pois é, senhores. :?

A grande verdade é que pressão só é bom dentro da panela.

Enquanto o governo não mostrar quem manda de verdade, as empresas aéreas continuarão a fazer o maldito lobby (nome bonitinho para pressão política) e continuarão a coronelizar o setor com regras fajutas para aumentar o lucro/vôo. :evil:

Resta a nós, passageiros, tripulantes e funcionários ligados à área de aviação rezar aos deuses a cada novo toque no solo, para que as condições de pista, manutenção e peso das aeronaves esteja sempre de acordo com o aceitável.

Resta às empresas a valorização da vida na equação Dinheiro X Vidas Humanas. :(