Caros aeroforenses
Parabéns pela colocação Felipe Weber!
Sem dúvida a aviação possibilitou que o Papa João Paulo II se reunisse com multidões ao redor de todo o planeta. O Papa peregrino utilizou como nunca os aviões de muitas companhias aéreas, principalmente a Alitalia, mas também a VARIG, TAP, TAAG, e voou inclusive de Embraer 120 Brasília, me parece. Não lembro se viajou de Concorde, mas é provável!
A propósito, o McDonnell Douglas DC-10-30 da Alitalia que o trouxe na primeira, nostálgica e inesquecível viajem o Brasil, como dito pelo Vladimir, foi o I-DYNE "Dante Alighieri", n/c 47862/88, ano 1973, primeiro vôo em 14/02/1973, entregue em 21/03/1973, equipado com três motores General Electric CF6-50C2. Em 01/09/1978 no pouso em Nova Delhi proveniente de Bangkok, por causa de condições meteorológicas adversas e sem indicações instrumentais do ângulo de descida, a aeronave tocou de forma dura a pista causando o estouro dos pneus e danos aos trens de pouso e pilones dos motores. Em 15/01/1986 foi para a Eastern como N390EA e em 09/10/1986 foi para a Continental Airlines com a mesma matrícula. Em junho de 1990 foi rematriculado como N12064, FN064. Estocado em Mojave, CA, em 01/10/2001 depois do último vôo com a Continental Airlines (último vôo da companhia com aeronave DC-10). Trensferido em fevereiro de 2001 para Greenwood, MS, para desmanche.
Achei esta interessante reportagem na Veja:
Viajando no avião de João Paulo II
31 de janeiro de 1979
Desde a partida, nesta viagem do papa ao México, percebeu-se um novo estilo, praticamente o oposto do conhecido até agora. Da pompa vigente sob Paulo VI, a rigor, notaram-se não mais que vestígios quando o DC-10 "Dante Alighieri" da Alitalia decolou do Aeroporto de Fiumicino, em Roma, às 8 da manhã de quinta-feira passada: a banda dos carabinieri, o corpo diplomático perfilado e alguns corazzieri da República italiana em uniforme de gala. O avião, que nas viagens de Paulo VI era todo pintado com as cores do Vaticano, tinha apenas um selo com as armas pontifícias aplicado na porta dianteira. "Paulo VI viajava como um chefe de Estado. João Paulo II viaja como o bispo de Roma", disse a VEJA um veterano acompanhante de viagens papais.
Um comissário que funcionou a bordo em antigos vôos pontifícios lembra, também, que Paulo VI era muito distante: "Na viagem a Nova York, em 1965, ele foi até onde estavam os jornalistas. E estes ficaram quase petrificados diante dele, que cumprimentou um por um enquanto seu secretário distribuía medalhas de lembrança". E uma comissária lembra a última viagem de Paulo VI, em 1971, para as Filipinas: "Ele estava tão cansado que prosseguia à custa de injeções que seu médico lhe aplicava regularmente". Agora, com o comunicativo e robusto João Paulo II, tudo correu diferente.
80 MINUTOS - A bordo, o papa ocupou um compartimento logo após a cabina de pilotagem, onde se montaram duas poltronas do lado esquerdo - para ele e para seu secretário particular, dom Stanislao Dziwisz - e mais quatro poltronas em torno de uma mesa dobrável. Num compartimento seguinte alojaram-se os vinte membros da comitiva oficial. Por fim, ocupando o terço posterior do avião, estavam 62 jornalistas (31 repórteres e 31 fotógrafos) de vários países, separados da comitiva por quatro guardas suíços à paisana. Tal precaução desmoronou, porém, em minutos. Assim que se apagou o sinal de "apertar cintos", quando o jato começava a sobrevoar o Mediterrâneo, João Paulo II apareceu na cabina dos jornalistas.
Alguns haviam tirado o paletó e afrouxado a gravata, outros procuravam dormir (a apresentação no aeroporto foi às 6 da manhã) e outros, ainda, serviam-se do café da manhã que as comissárias distribuíam. Todos se recompuseram, às pressas, e seguiram-se 80 minutos de conversação com o papa. A um repórter do canal 2 da televisão italiana, dirigida pelos socialistas, que se apresentou como representante do "canal leigo" (em contraposição ao canal 1, dirigido pela democracia-cristã), João Paulo II observou: "Você é leigo, mas eu sou religioso. E agora?" Quando lhe mostraram, pela janela, os Pireneus cobertos de neve, ele se inclinou: "Hum, ótimo para esquiar".
Ao final das dezenas de perguntas e respostas, o papa despediu-se, não sem antes arrematar, olhando para o relógio: "Uma hora e 20 de entrevista. Vocês deveriam me pagar por isso". De volta a seu compartimento, ele passou a maior parte do tempo trabalhando, com o substituto da Secretaria de Estado, monsenhor Caprio, ou com o secretário particular. Não assistiu ao filme (embora estivesse também à sua disposição) "The Goodbye Girl" nem usou os fones de ouvido (também à disposição de todos os passageiros), nos quais poderia escolher entre a ópera "Nabucco", de Verdi, ou seleções de jazz e rock.
SOUVENIRS - No almoço, Sua Santidade serviu-se apenas de parte do nutrido cardápio oferecido: medalhões de lagostas, e presunto cru, de entrada, e lombo de vitela ao vinho Frascati com alcachofra e legumes, tudo regado a vinhos italianos (branco: Pinot Grigio 1977; tintos: Brunello di Montalcino 1971 e Barolo Marchesi di Barolo 1971) e champanha francês. Uma pequena concessão às tentações da mesa foi cometida na sobremesa: uma torta polonesa, feita de creme de castanha. Depois, o papa repousou por 10 minutos, reclinando a poltrona mas sem utilizar a máscara escura posta ao lado. Retomou, então, o trabalho com seus auxiliares até o desembarque na República Dominicana.
Na manhã de sexta-feira, ao iniciar a segunda etapa de sua viagem, João Paulo II não aparentava desgastes fisicos, apesar da veste branca estar um tanto amarrotada. Entre os membros da comitiva, porém, quase ninguém conservava a forma de 24 horas antes. Agora, ao contrário do inverno romano, enfrentava-se o tórrido sol do caribe. E um atraso de quase meia hora, na partida, afetou até monsenhor Paul Marcinkus, o gigantesco bispo americano que preside o Banco do Vaticano e que, nas viagens pontificias, faz as vezes de guarda-costas. Completamente banhado de suor, ao lado do presidente Antonio Guzman e do corpo diplomático, monsenhor Mareinkus implorava por uma toalha.
Durante o vôo de quatro horas e meia entre São Domingos e a Cidade do México, João Paulo II não confraternizou com os jornalistas. Seu almoço, diferente dos demais passageiros, foi um típico peixe mexicano - "Blanco de Patzcuaro" - seguido de "Carne a la Tampiqueña" e "Frijoles refritos" (um tutu de feijão). Os alto-falantes de bordo, mudos na primeira etapa da viagem, agora funcionaram para que a chefe de cabina desse as boas-vindas a Su Santidad e comitiva. Do vôo da Alitalia, todos os passageiros guardaram uma finíssima caneta com a data de 25 de janeiro gravada no prendedor. Do vôo da Aeroméxico, o souvenir foi uma fita cassete com uma orquestra de mariachis acompanhando uma cantora que louva, em ritmo de bolero, a ascensão de João Paulo II ao trono de São Pedro. Terminava, assim, uma viagem dura, longa, à qual se seguiria o intenso programa papal em Puebla - e, depois, mais um comprido vôo de retorno. Mas nada disso, pelo menos na ida, parecia impressionar João Paulo II. Agora, é ver como ele se portará na volta.
Saudações
Caravelle